15/06/2009

cascalho do morro

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 17:30

Coxas moças que se roçam, quentes e úmidas, num entremeado danado de pêlos, suor e hálito alheio – passa disso? certamente não. aí depois do sol posto, quatro horas adiante num dia quente, esquece de tudo e senta no chão de cimento, abaixa a cabeça, inclina as costas e faz promessa pro santo, que é dia dele. fumaça enferrujada de lamparina inunda a casa, mistura com a parafina, abraça as ventas e diz que é hora de rever o passado, olhar para madrinha-chica deitada, seca, enrugada numa rede, escondida atrás da luz oscilante, toda miúda a pobre, mal desconfia que já está morta faz anos. passa pelo quarto, olha o sobrinho inválido entretido com os dedos dos pés numa rede, fazendo sons de gado. madrinha-chica pensa que betinho é homem feito já, quase 40 anos, um instrumento que se revela imenso algumas vezes ao dia, barba feita, penico encostado ao pé da parede e tantas horas ainda para contar.

17/03/2009

amelinha

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 14:08

piranha, vaca, injeitada de satanás,  sapatona, vadia, piriguete, ordinária, filha de sapirico, messalina, marafona, cocumbina, demônia, rapariga, puta, subnitrato de pó de merda, vulgar, cafona, escrota, vagabunda, estrume, fedida, pestilenta, macaca, jumenta, égua, cavala, catraia, embuste, chupadora, trava-rua, catimbó, ebó.

26/02/2009

bonjour tristesse

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:02

pois hoje, entre uma revirada e outra, esperei acordar e ver a montanha, o céu pálido, sentir o vento ameno que sopra do pacífico,  mas não havia nada lá – só o cheiro familiar do quarto e dos lençóis. tateei as paredes em busca da textura amarela estranha, meio ébrio de vertigem e avião, tentando achar a janela com vista para o cemitério, a longa descida onde parava o ônibus 607, o reflexo do piso encerado. estavam lá tampouco. 8h10 e já não haveria mais as caminhadas longas, esbaforidas, a ânsia de entrar nos becos, escalar os cerros, tomar helados e comer completos.  estava de volta, era real, irreversível, o relógio tornava a girar, as tardes voltariam a ser mais curtas, a noite mais arrastada, as paisagens repetidas, nenhuma descoberta, a mesma língua, as mesmas pessoas, o mesmo desassossego, os mesmos planos, o mesmo tudo.

11/02/2009

sufoco

Arquivado em: carne e osso, rien — by ignoremode @ 11:18

sempre houve esse problema com os métodos de controle. involuntariamente, o espírito diz não, invoca o anarquista adormecido – anarquista que dorme porque precisa pagar as contas, mas acorda quando se vê ameaçado de castração. se está ficando difícil, deve piorar ao longo dos meses. não há saída para quem não nasceu rico – ou diz amém ou mora na rua. sufoca o grito, abelardo, tenta achar um motivo pra levantar da cama e põe força nessa peruca. engasga com o vômito. não há saídas imediatas. o que lhe resta é aceitar e tentar encontrar alguém para amar.

06/02/2009

um macaco para S.

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 13:35

Escape, originally uploaded by Pucky learns 2 fly.

hahaaha, nao falei? isso é muito previsível, meu amigo. todo mundo sabe como a S. opera – e não é da maneira mais suave.  seria preciso alguém com muito trato social, o que não é o seu caso, para trocar uma idéia com ela, falar que esse hábito de escalar as paredes da sala suja o branco-gelo, deixa marca de peitos, pernas, pés e suor. não é legal, não mesmo.  ficam o mau cheiro, as histórias e as pequenas marcas de tormentos para gente lembrar todos os dias.

já pensou em alugar um macaco pra S.? talvez fosse uma boa idéia, o que você acha? não deve ser caro. porque comprar uma casa com vista para a montanha só a conteve por alguns minutos – agora, não dá a mínima. gastamos tudo o que tínhamos pra nada. nem em dias de erupção, te digo, nem em dias em que a lava alaranjada entra pela casa dissolvendo nossos móveis e lambendo nas nossas pernas, ela pára para prestar atenção ao que os convivas falam.  e fica chato pra mim, pra você, pra mamãe e pra dona zeli – que não é nossa parente nem nada mas está sempre aqui. é como se fosse da família.

penso que um macaco a acalmaria, tenho essa intuição.

27/01/2009

Não sei você, mas…

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 17:47

… se eu tivesse um blog, seria estilo diarinho, sei reconhecer minha pequenez. dona lourdes ensinou que a gente só consegue olhar para o mundo quando tira os olhos das tripas. e os meus continuam lá, rolando pra cima e pra baixo nas curvas retorcidas dos intestinos, seguindo o fluxo dos excrementos. não dá, bicho, pra arrancar um pensamento articulador, fazer uma análise, falar algo brilhante e edificante quando tudo que acontece é tão chato, tão cinza, tão já-dito. não dá.  obama, faixa de gaza, CEM (Crise Econômica Mundial, agora como instituição), queda na produção industrial. nada parece mais interessante que meus acontecimentos menores: pessoas que beijei, desprezos que recebi,  fofocas de trabalho, ouvir a vida dos amigos e dos inimigos, enfim.

17/08/2008

pensamentos compensatórios

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 23:11

as flechas ligeiras chegam antes, rasgando o vento e se alojando nas paredes. depois vem a batida do tambor, os passos, os gritos de guerra e, finalmente, a inspiração profunda cheias de pensamentos-diretivos, do tipo “você pode, você é capaz”.  hora de enfrentar os homens armados, tomar bala no peito, enfiar a faca no pescoço do outro. mas as células nao assimilam e o pensamento é atingido por um projétil, por outro e por outro. no fim, você volta a ser o que você sempre foi, criaturazinha miúda, cheia de derrotas nas costas – as mãos cheias de sangue, o corpo vazio e suspenso. ninguém sabe o que você quer. mude de nome e de cidade, tente nascer de novo.

26/07/2008

o sorriso do trem

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 20:19

sua pele, seu cheiro, seu nariz… só existem no mundo das senhoras oníricas, aquelas roliças e nao totalmente feias, servis e facilmente despercebidas. seus olhos, sua postura, sua voz… não habitam o mesmo mundo que o meu. não falamos a mesma língua – sequer trocaremos línguas um dia. você pertence às gorduchas-dos-sonhos, não a mim. poderia dizer que seria mais feliz se me apoiasse em um dos extremos, mas aqui, no meio-termo, não sei para que lado mirar e disparar os tiros que lhe abateriam. também não consigo te identificar em meio às revoadas. minha pontaria é cega, de qualquer forma.

21/07/2008

24 de julho

Arquivado em: carne e osso, d'artista — by ignoremode @ 12:18

Você insiste tanto para que eu continue com o desenho, que eu bem preferia não tocar nesse assunto, para evitar dizer-lhe que tenho feito muito pouco nesses últimos tempos.

Jamais fui tão feliz, nunca a minha sensibilidade pela natureza, até pela pedrinha mais insignificante, foi tão completa e tão profunda, e todavia… não se sei como dizer tudo isso… minha faculdade de expressão está tão fraca, tudo flutua e vacila de tal modo diante de mim, que não posso fixar nenhum contorno. Mas acredito que, se trabalhasse a argila, ou a cera, talvez conseguisse transmitir o que tenho no espírito. Se isso persistir, vou pegar argila e amassar, nem que seja apenas para fazer bolinhas…

Três vezes comecei o retrato de Lotte, trêz vezes fiquei envergonhado. E isto me deixa ainda mais aborrecido porque há bem pouco tempo eu conseguia reproduzir-lhe os traços com muita fidelidade. Acabei conseguindo fazer um esboço, e é preciso que isto me baste.

goethe

15/07/2008

salzburgo

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 0:34

o que eu posso dizer, donantônia? todas as perspectivas, sejam elas amplas ou medíocres,  me assustam. todas. mas todas mesmo, pode acreditar.

08/07/2008

coleção outoninverno

Arquivado em: rien — by ignoremode @ 19:09

Escrevi isso em 2003:

quero que amanhã o dia acorde em agosto. e que fique escuro mais cedo. e que precise de edredons pra dormir. quero dar pulos no banheiro enquanto espero o chuveiro esquentar. quero pensar duas vezes antes de sentar na privada fria. quero sofrer pra lavar a louça. quero tomar sopa de ervilha ou de cebola. chocolate quente. desvairadamente. quero usar casacos e muitas camisas – uma sobre a outra, do jeito que eu gosto. quero vidros embaçados. quero cortinas fechadas e me deliciar nos tons sóbrios que os dias frios trazem.

cinco anos depois, posso dizer que tudo o que eu quero é exatamente o oposto.

sereno

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:44

enche o copo até a borda, moço. hoje é dia de negociar com aqueles filhos da puta inclementes. menos gelo, mais birita – não precisa economizar. talvez  seja o dia de você tentar furar algumas regras – que tal, hein? já deixa a garrafa aí porque daqui a pouco, como eu disse, aqueles infelizes vêm me atormentar a paciência, me fazer tropeçar nas palavras e me enfiar em becos sem saída. parece moleza pra você, que está  protegido pelo balcão de cimento maciço, mas olhe para mim: vulnerável, mal vestido e sem grandes posses para enfrentar o mundo olho-a-olho. então, meu caro, peço que não seja você também um cretino: apenas encha o copo até a borda sem falar nada, por favor.

07/07/2008

remendo

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 14:10

ponha as mãos em mim. amasse minhas tripas, destrua minha forma, reconstrua à sua vontade, me refaça à sua maneira, do jeito que você sonha como um homem-deve-ser. quero ser seu idealismo, seu video-game, um soldado sempre pronto para atender às suas expectativas. ponha as mãos em mim. PONHA AS MÃOS EM MIM. veja como sou maleável, consigo desgrudar os braços, girar a cabeça a 180º,  pôr os calcanhares na nuca, entortar os ossos, fazer a barba crescer, diminuir, ser loiro, negro, amarelo, índio, ser eu mesmo, ser você, ser seu projeto. ponha as mãos em mim, por favor.

20/05/2008

dissabores [epílogo]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:55

tamara de lempicka

essa contração no baço me leva ao estranho mundo de ramona. três pontadas de lado, duas pra esquerda, uma pra direita, um suspiro e doiscomprimidos. uh, rá, eis que aparece o diabo da ramona, grande, espaçosa, sapato branco 38/39, não lava a louça nem passa as roupas. i ain’t no ramona, i ain’t no ramona – o carrinho de sorvete anuncia no fim da rua. na cozinha onde ramona cozinha a caçarola encardidinha encaroça o picadinho mal feitinho. na cozinha onde ramona cozinha tem saia rodada, fivela, goma no cabelo e ciclete duro que faz bolinha, explode na cara e mata a pobre moça sufocada.

agora vem ramona embaladinha na caixa roxa de madeira de caixote – sem cozinha, sem picadinho sem seu tamanho descomunal. as contrações passaram.

12/05/2008

dissabores [o decorrer]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:01

vamos esmagar flores pra fazer chá. chá-chá-chá. nos países onde só se chega voando fala-se té. té-té-té-chá-chá-chá. dancemos? dancemos. mas peraí, peraí, tive uma idéia: dancemos sobre as flores, assim matamos dois coelhos com uma única cajadada. matamos dois coelhos pra colher duas xícaras de chá-chá-chá-té-té-té. vai, se aproxima e pisa sem dó nas pétalas e nos botões. recomenda-se fortemente evitar os espinhos e as roseiras, porque ambos são amargos e truculentos e dóem quando pegam a gente de jeito. agora vem, isso, sem pensar demais. cruzemos os braços e agarremos a cintura um do outro. porque dançar só é gostoso quando seu peito roça minha camisa e rodopiamos aleatórios ao som de nada – já reparou no tempo que a gente perde de tocaia à espera de algum tolo capaz abrir a tampa dos nossos galpões?

quer chá de que, meu amor? tem de hortênsias e tulipas e cravos e olivas e calêndulas e vetiver e rosmarim e acácia e peroba e jatobá e mogno.

morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.

já, já, já, já morena velha eu
quero chá.

dissabores [prólogo]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 11:55


[camilla engman]

bichinha magrinha, sozinha, luzes no cabelo, nike shocks, vaga pelas ruas em busca de amor. desce a augusta, atravessa a d.antônia de queirós, cruza a rego freitas, olha, não acha, vaga pelo arouche, espia sobre as mesas na calçada. bichinha-magrinha quer alguém que se encaixe nos seus sonhos de menina – um homem forte, de mãos grandes, voz grossa, topete curvado, peito marcado. quer que o macho se enrosque no seu corpo e ofereça toda sua doçura e suor ao seu par mirrado de traços cafusos. bichinha-sozinha quer ouvir apolo dizer baixinho em seu ouvido o quanto precisa dela, que sem ela não viveria, que a vida só faz sentido porque ela, a bichinha, existe e o completa. bichinha-magrinha quer um pai-amante, super homem amplificado. sozinha-novinha pelas ruas da metrópole em busca de amor, passa na sé, desce ao terminal d.pedro, pega um ônibus para o ibirapuera às três e meia da manhã. “faço dezenove esse mês”. é a idade de casar e servir o seu homem. bichinha-magrinha-sozinha acha que hoje encontra sua metade. mas a noite desfalece e ela espera o trem, que não virá , comendo cachorro-quente com purê de batatas.

11/05/2008

garganta

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 22:48

sua garganta é minha, na verdade. e está ferida, ardida, pisoteada. andar de botas na garganta alheia? que hábito feio! nada que já não fosse esperado. sei que você anda de botas por gargantas, tímpanos, trompas, baços e cabaços sem respeitar os carpetes nas entradas que dizem “limpe os pés” em letras vermelhas felpudas.  portanto, o que é a minha (sua) garganta pra você? (…) mas deixando de lado o assunto “sua (minha) garganta”, vi o preço da passagem: as duas dão quase cinco mil reais, bicho. é muito dinheiro! e detalhe: as duas são pra mim. você fica aqui mesmo, paralisado, com a sua (sua) garganta.

23/04/2008

au revoir, edgar.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:44

estou planejando minhas férias, edgar. férias curtas, mas férias de verdade, remuneradas – porque, você sabe, edgar, eu passei um bom tempo de férias-forçadas, imerso em água sanitária, tentando me livrar das nódoas do passado. foi dureza, edgar, mas agora a coisa mudou. e nessa mudança calhou que eu devo tirar férias daqui a uns meses, edgar. férias, edgar, férias! já pensou? férias! faz tanto tempo que eu não sei o que é isso. imagina acordar e sair por aí, debaixo de sol, chuva ou granizo, vestindo uma cueca sua por baixo do sobretudo, edgar, pra não me esquecer jamais de você enquanto eu estiver no continente distante.

18/04/2008

fogo de palha

Arquivado em: o cozinheiro — by ignoremode @ 17:53

pedacinho a pedacinho, o que era sólido vai derretendo, e a fumaça de uma hora pra outra se espalha, toma conta da casa, passa por baixo da porta, encontra o corredor e se aloja nas narinas dos passantes. dá pra ouvir  um “que cheiro bom” embolado em meio a um suspiro, diminuído pelo giro da chave, pelo bater das maçanetas.  a cebola encontra a manteiga borbulhante: a alquimia ganha cor e corpo – e se desembesta para as ventas alheias, pelas janelas, pelos póros das paredes, por todas as frestas possíveis. acontece finalmente a avalanche de carne – a fumaça escurece um pouco – e a labareda cresce agitada. mexe, vira, cuidado com o fogo, “cheiro bom. cheiro bom”, mexe mais um pouco, salpica uma pimenta do reino aí – não, pimenta não – então deixa assim mesmo, só carne e cebola e manteiga. porque quanto mais simples, mais gostoso. os cubos dourados se alojam no prato, a ânsia de destruir o castelo se acirra, os narizes vizinhos sucumbem aliviados, esfomeados, e correm tateando ao encontro de suas próprias panelas.

11/04/2008

fio

Arquivado em: d'artista — by ignoremode @ 11:42

sua voz
é oca

08/04/2008

gourmet

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:12

você faz parecer fácil essa arte de pular de galho em galho. pois não é algo que eu poderia fazer, monsieur, porque, ao contrário de você, sou apenas um macaco gordo e macilento, sem viço, cinza e inerte, com o corpo estendido em praias mortas. mas isso não impede que sejamos amigos, monsieur. aproxime-se e veja por esses binóculos onde as pernas da madame estão acostadas, lá no pico da montanha, descendo curvilíneas até o meio do vale. não te dá vontade de escalar essas pernas, monsieur? mordê-las, monsieur? embalá-las em papel-alumínio e aquecê-las durante 45 minutos em forno preaquecido a 180º , monsieur? regadas com um bom azeite, monsieur, servem com fartura até 30 homens famintos – os seus homens, monsieur.

07/04/2008

a A

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 23:43

a. se retorce com as dores e a ferrugem avança pelos seus ossos. não sei o que fazer além de me agachar, tapar as orelhas e me refugiar nesse silêncio opaco e formigante, afrouxar as pernas e cair nesse barulho estranho que vem de dentro da cabeça. já chega. é hora de tomar dois, três, quatro, cinco goles dessa coisa forte, ardida e esperar que a tremedeira passe. ao que vejo, rezar não adianta. esperar também não. chegamos ao ponto, a., em que não conseguimos mover em nenhuma direção: nem pra cima, nem pra baixo, nem pro lado, nem pro outro, nem içar as velas, nem cuspir na ciência, nem na literatura rasteira. estamos engaiolados na nossa própria pequenez, a. desculpa não poder trocar de lugar contigo. eu o faria, se pudesse.

balada

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:46

hoje é seis ou sete? não importa. seis ou sete de abril é o dia da mentira, e eu vou te pregar uma peça. primeiro a gente dança, faz confissões extraordinárias na varanda e em seguida, sob o bafo úmido da cidade, observa as nossas anáguas empinarem com vento. veja como essas brincadeiras, tão simples, revelam as diferenças entre mim-e-ti: eu levanto a saia porque gosto de sentir o refresco nas minhas virilhas suadas. você faz porque se delicia com os uivos dos babuínos lá embaixo, aplaudindo e gotejando com a visão do seu sexo. eu danço porque gosto de sentir seu hálito no meu pescoço. você dança porque gosta de exercitar as pernas. eu te revelo todos os segredos porque confio em você. você me revela os seus porque isso te diverte – ademais, nem sei o que você me conta é realmente verdade. suspeito que não.

30/03/2008

la leche

Arquivado em: d'artista — by ignoremode @ 21:29

rachael

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 21:27

veja só isso, é de morrer. nunca ri tanto em minha vida – e olha que nasci nao faz nem duas horas. quando chegará? estou cansado do vento na cara, de olhar por essa janela, de atravessar a cidade com a vista que tenho daqui. por onde posso começar a me confundir? tem uma pista de onde eu acho auto-sabotagem pra comprar a quilo? nada me interessa, exceto as pílulas que você carrega no bolso.

wonder where you’re going, what you’re doing, what kind of air you’ve been breathing.  bottled air?

queria (muito) saber o nome daquela música, aquela que faz “tchu… tchuru… rururur…”.

28/03/2008

malas prontas

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:08

estão ali, cinzentas, encostadas, esperando chegar a hora. mas relógio não anda, você não vem, os olhos recorrem à janela, à pia, a uma última checada no quarto. há um certo cheiro familiar, mas vem da cozinha ao lado – já reparou que nada familiar vem da gente? não construímos nada. a ausência já foi contabilizada duzentas e setenta e quatro vezes, mas agora a ausência se ausentou de vez. só deixou um pouquinho de poeira, mas a guzimeire pode dar um jeito nisso amanhã de manhã. amanhã de manhã já não haverá ausência, nem malas à epera de um bote que as transporte para o outro lado da ilha. veja, meu irmão, não importa que seja o ano 1 – as coisas continuam do jeito que sempre foram, só alguns signos mudaram. nunca haverá o ano da sua vida. tanto que te pedi pra não se apegar a essas esperanças atrais, né? bom, agora já não tem jeito. você vai para um lado, e vou te seguir na reta paralela.

26/03/2008

tell me

Arquivado em: d'artista — by ignoremode @ 17:51

tell me, originally uploaded by criminal.

 

a retirada

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 17:05

se você acordou com uma cauda pendurada, não é um problema meu. vai ter que conviver com isso até não-sei-quando – talvez até chegar a sua hora de abotoar o paletó, talvez até encontrar um cirurgião que dê jeito, talvez caia sozinha com o tempo ou talvez, mas muito talvez, seja só uma paranóia sua que tomou corpo e que, quiçá, se desmanchará daqui a duas ou três horas. mas por favor não ponha a culpa em mim. e outra coisa: pra ser bem sincero, achei que já tivéssemos dado esse salto na escala evolutiva da espécie, mas, hum… ainda gosto dos seus olhos escuros, escuros-azuis, poços sem fundo que cheiram a limo e emitem esse insistente coachar de rãs. barba mal feita, cabelo escasso, um recheio extra de gordura na barriga, nos peitos, nas costas, nas mãos, nos pés, no cérebro. ah, bicho, se você soubesse que essa cauda é o menor dos problemas… pior é essa marca de zorro que você imprimiu aqui dentro e que não sai nem se eu puser de molho no vanish.

tang cupuaçu

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:51

vê lá, menino, na lata vermelha. não nessa. essa é a azul, idiota! esse seu cabelo é péssimo, sou obrigada a dizer. já passei muita vergonha na rua por causa desse ninho de mafagafinhos. então vai lá, na lata VERMELHA, e pega a pomada pra abaixar essa arapuca. onde já se viu, um marmanjo nessa idade ainda andar por aí com esse cabelo. É a vermelha, imbecil. Não sabe o que é vermelho? Ou nasceu daltônico? Esquece, eu apanho pra você.

21/01/2008

meu prazer.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 13:02
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