26/06/2007

a castanha.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:53

dona risadinha, cheia de marra, chega meio mulata-de-televisão fazendo beicinho e levantando os cabelos cacheados com os braços, exibindo as axilas lisas meio escuras, o bronzeado dos braços-de-dentro, abaixando devagarinho, mostrando a ponta da língua, andando esquisito, enfim, essas coisas que o calor faz com a gente. penélope em fúria, gira, olha meio assim, do jeitinho que viu na novela, e deixa o cabelo cair nos ombros, nas costas, por sobre o rosto.

as mãos vao escorrendo sincronizadas pelo corpo, sobem a ladeira dos seios, desnudam um deles, descem e páram na cintura. espaço aberto para o bico negro e rígido emergir do meio da renda, moleque pretinho atrevido que quer meter o nariz aonde não é chamado. ela olha devagar, faz uma coisa com a boca – como se dissesse “ops.. escapou” – traz o rosto de volta, aperta os olhos e continua a lascívia da vulva quente, invocando a lava que precisa escorrer por entre as pernas, se contorcer com a dor das punhaladas. aproxima-se, mexe na cabeça do corpo macilento e atônito, esfrega o ventre nu nas faces vermelhas do moço, que, de olhos fechados, inala o cheiro de perfume e suor, passeia com a língua pelo umbigo, sente a textura da pele afastar-se e reabre as vistas para observar o cabelo ondulado subir novamente, o rosto se estreitar com as expressões ensaiadas, os dois peitículos balançar solenes ao som de nada.

cai o balaio, a castanha negra e oleosa está ali, a menos de um braço de distância. deseja-a a ponto de sentir uma vertigem nos testículos, algo frio que sobe pela bexiga, ataca o estômago e vem se agrupar na garganta. quer, e está nervoso. precisa daquilo para abandonar sua condição de homem, refazer-se menino minúsculo, entrar por aquele túnel e ficar ali, agachado no silêncio, corroendo a pobre mulher por dentro: parasita, sim um parasita. era aquilo e pronto!

ansiava como nunca pela fruta negra embutida, repleta de espinhos, precisava fartar-se dela, dormir no seu entorno, manter a vigília eterna que protege suas entradas e suas cavernas. os passos estavam quase-lá, notava o perfume abraçá-lo, enfiava os dedos no lençol, apertava-o, punha a língua para fora e esperava, passivo e predador, o ventre roçar ali outra vez- mas agora não o deixaria se distanciar, é pra valer, tremia pelo pedaço daa carne escura-de-bronze, canibalizaria os corpos para que ninguém se perdesse ao voltar para casa. mãos pequenas agarravam-lhe a cabeça, sufocavam-no contra a pele fria e elástica. estava ali a deixa pela qual tanto esperara: tirou da boca o braço áspero, envolveu as ancas, cravou os dedos na polpa mole das nádegas e mergulhou pelas brechas úmidas, cheias de sabor e sedimentos. abriu os olhos e percebeu que metade de si já havia ingressado naquele mundo imaginário, buscou a superfície para respirar por um segundo e percebeu, pela primeira vez na vida, que estava com um pedaço de carne viva e pulsante entre os dentes.

25/06/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 17:04

vem julho, agosto, setembro: a primavera cai, salta aquela vontade descabida de botar o pé no tapete quente, atravessar o túnel de vidro e espremer-se entre tantos imersos no ar rarefeito. quero porque quero, viajo na idéia, mas sei que os números são bem mais caóticos – castradores como uma mãe recalcada. o medo de decidir é o que aperta o breque. faz um barulho estranho, um efeito estranho, uma sensação estranha, mas não é preciso mentir por completo. a verdade entreaberta é bem aceita, de forma geral, e não denigre sua dignidade tanto quanto a verdade vermelha. por falar em cores, por que não tenho camisas brancas? não há umazinha sequer. aliás, mentira: tem uma pólo velha, encardida, que só uso quando me faltam as habituais. pólo não me faz bem, nem me deixam com pinta de galã. é hora de fechar o olho, meu rapaz, e a travessar a sala cheia de olhares. faça como eu te disse: ponha as mãos na cabeça, prenda a respiração e vá cruzando como se estivesse tudo escuro. se bater em algum obstáculo, gire pro outro outro lado e ache uma saída possível. não, nem pensar: não posso te dizer aonde estão as saídas. deixe esse hábito de otimizar tempo para as jezebéis de cabelo ruim e discurso pronto.

vou comer margarina de novo!

Arquivado em: guzimeire — by ignoremode @ 14:02

ontem acordei com seu apolinário ligando, uma voz esquista que só, perguntando se eu não queria voltar pra lá. mas nem morta, meu filho, agora que me jogou no olho da rua num vai mais ter o prazer do meu trabalho nao. tão pensando que eu sou dessas é? pois prefiro passar fome a baixar a cabeça praquele fio duma ronca-e-fuça. se depender de mim, meu filho, eu não olho nunca mais na cara daquela tal de dona salete, nem que ela apareça pintada de ouro, ainda mais com aquela gata véia entojada cagando a casa todinha, desfiando o sofá. só vou ter saudade mesmo é de quebrar a vassoura no couro daquela bicha véia nojenta, que era a única coisa boa pra fazer quando todo mundo saía. gata véia sebosa. tu acha que vou voltar pra casa de seu apolinário? mas nem a pau. sou uma mulher de palavra, viu? posso até ser pobre, quer dizer, mais ou menos pobre, né?, mas tenho meu orgulho, viu? se fosse silmara, já tava lá mostrando aqueles peitão pra seu apolinário, toda oferecida. tem gente que não se toca mesmo, viu? essa silmara é uma quenga, nunca vi desse jeito. então, aí seu apolinário disse que dona salete tava fazendo o maior labafero por causa que a empregada nova num dá conta do serviço e não sei mais o quê. só ouvi a voz lá trás, chame guzimeire de volta pelamôr. tô nem aí, meu filho. volto nada, to muito bem como tô, quero mais aquilo pra minha vida não. eu disse mesmo assim: seu apolinário o senhor pensa que eu sou o que, seu saco de pancadas é? pois não sou não, viu? já arrumei um trabalho novo numa casa muito mais bonita que a sua, e ganho muito mais, dois salário, já tô até pagando a fatura do cartão todinha, quando trabalhava pro senhor precisava parcelar e tava me lascando todinha nessa história. quero mais não, viu? pode esquecer meu número, quero mais é que o senhor se lasque. aí desliguei o telefone e o danado ligou logo em seguida, aí já atendi dando uns berro naquele sem-futuro mas era dona salete dessa vez. disse que ia me pagar três salário. agora sim, né? gosto tanto de dona salete. pense numa mulher boa só é ela, era a única pessoa naquela casa que me queria bem, o resto é tudo umas prejura, quero nem papo. mas dona salete é boa demais, ô mulher abençoada, viu? já começo amanhã. vou ligar agora mesmo pra silmara, quero só ver a cara dela depois que souber o tanto de dinheiro que vou ganhar. vou esfregar na cara daquela bisca que não preciso casar com nenhum cramunhão preto e fedorento pra poder ter uma televisão de prata, praia, plácia, pla…

21/06/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 16:29

mania de confessar pequenas culpas e revelar fraquezas para que as coisas não parecessem tão ruins como eram na verdade. mas de pouco adiantava, porque sempre ia embora incólume, branco e sem expressão. tinha a si mesmo, o braço forte e protetor das suas idéias -  e isso era tudo.  sopa quente no verão, sorvete no inverno e agrião o ano todo. era dificilimo ser como eles, sabia, mas o que poderia fazer? nasceu torto, vai morrer torto.  foi então que veio com essa história de jogar fora alguns demônios que sempre lhe foram úteis.  agrupou os joelhos na nuca, girou o pescoço e arrancou com a língua pequena e afiada algumas minhocas que se instaram nas paredes.

20/06/2007

proxeneta

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:44

a campainha tocou enquanto eu ainda estava embrulhado num edredom pesado, rezando para que nunca amanhecesse: porque o fim de madrugada, essa hora nem cá nem lá, é a que eu mais gosto. quando clareia tudo se dissipa – os fantasmas reencontram suas malocas, as putas voltam pra casa arrastando os tamancos e a moral incendeia de novo o corpo dos que têm reservas demais. enfim, eu estava dizendo que a campainha tocou exatamente nessa hora. era h., impávido, tentando me convencer com palavrinhas difícieis, “trôpega”, a deixá-lo entrar, esquentar o corpo branco-avermelhado, explicar o porquê disso, o porquê daquilo.  não vai dar, caro h., logo o sol se precipitaria pelas brechas das tábuas mal grudadas e ao menos um risquinho de moral tocaria a minha pele. aí nós estaríamos perdidos, você sabe né? sabe que eu seria capaz de te sufocar com a fronha, arrancar seus pêlos com um garfo, entortar suas unhas com um alicate ou, dentre as hipóteses mais terríveis, abrir a porta e permitir que você fosse embora.

19/06/2007

terça branca

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:06

faz exatamente um ano hoje. um ano! lembro tão bem de quando v. me ligou e falou que d. havia morrido, estatelado em uma mureta por causa de um acidente de moto. era mentira, só podia ser. brincadeira de mau gosto, mas v. nao é dessas coisas e lá no fundo eu sabia que não havia qualquer inverdade ali. d. havia tomado outro rumo. dizem que nao so abandonou o corpo como pisou em cima das carnes esfoladas até os ossos saltarem, tesos e amarelados, à superfície. era bem típico dele essas explosões de temperamento, de quebrar os pratos na cabeça, ralar os dedos tentando remover os miúdos e bater no irmão mais velho. deixei o telefone pra lá, chamando meu nome com uma vozinha metálica e remota, e fui caminhando até a portinhola que leva para fora do planeta. só por alguns segundinhos, pensei, eu precisava ver a cidade de cima, sentir o oxigênio escassear, a pressão a explodir os ouvidos e perceber as convulsões estranhas que subiam da virilha até a garganta. não, essa não era uma a saída mais adequada – nessas horas eu só pensava no que podia ser adequado ou não. era quase o primeiro dia inverno, dali a dois dias estaria oficialmente escuro e frio, então a idéia foi pegar um bonde qualquer e subir a montanha velha, onde pude enterrar os pés descalços na neve e ficar lá, amuado, à espera de uma primavera que não chegaria jamais.

guadalajara

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:00

não precisa entender. que coisa chata essa exigência de entender tudo. sou desconexo, acontece. encare as coisas como se eu tivesse falando diretamente com você, como a gente costumava fazer às vezes, enroscados numa rede velha e barulhenta. porque as coisas são assim mesmo, mon dieu, não adianta querer acender as velas quando o vento está forte e as janelas, abertas. acontece que às vezes fico concentrado no cheiro de madeira que desce das toras gigantes de carnaúba que sustentam o teto, porque me fazem lembrar dos dias em que eu passava no campo, de férias da escola, comendo umbu e afundando entre as cachoeirinhas de lama que percorriam a casa em dias de chuva. já teve a sensação de que precisava fechar os olhos para ouvir melhor? eu fico assim às vezes, só que de olhos abertos. talvez já esteja na hora de reparar nesse seu hábito de empurrar os óculos para cima do nariz, mesmo quando eles estão perfeitamente enquadrados.

vento sul

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 13:23

parece tão pequeno e fácil de fazer, mas na hora o cérebro trava e tudo fica duzentas e trinta vezes mais difícil. nessas horas é melhor abrir uma coca choca, eu diria – quem não adora coca choca? mas as coisas que já foram gasosas um dia me fazem lembrar dos seus pés sujos pela casa, saindo pelo meio daquelas calças desgastadas, feias de doer. de meia em meia hora vêm aquelas mensagens tolas no meu telefone: aparecem, evaporam e só sobra o sabor insosso do abandono. acho que você é a minha coca choca, muita gente já até me falou isso. mas te dou um conselho: está na hora de perder esse hábito. se minha mãe me pega falando essas putarias com você vai descobrir todo o nosso esquema e aí eu quero ver a sua cara de tacho andando por aí com os pés dessa cor.

13/06/2007

maçãs-do-amor

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:13

vai, quebra. mas quebra com vontade, joga tudo no chão, deixa em pedaços invisíveis e cortantes. porque assim não dá pra colar os cacos nem ressuscitar os monstros que surgem dessas empreitadas mal engembradas. só nao quero ver esse dedo apontado pro meu nariz, dizendo que eu não avisei, que fui inerte, que deixei você tropeçar e ralar os cotovelos – pense bem: é minha culpa se você não controla as próprias pernas? tenho tentado implodir os relógios com uma garrafa de vinho verde e o segredo do cofre escrito em uma barra de margarina na geladeira. você diz que é fácil porque não é uma atribuição sua. o trabalho alheio é sempre suave aos olhos do estranho. ainda não tenho opinião formada a respeito desse pingente que você trouxe pra casa, ouro não combina com o seu tom de pele. aliás, nada dessas coisas combina com você, nada mundano se encaixa nesse seu corpo, acho. olha, preciso confessar que essa rotina de jogar sal nas suas feridas e ficar horas só para ver sua pele saltar grossa e empelotada por causa da janela aberta já está me dando nos nervos.

12/06/2007

correu, virou, tropeçou.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:16

despertou tateando as paredes, engatinhando por uma cama que não fora sua por alguns dias, banhou-se com o amarelo das paredes, deslizou pela geometria obstruída do quarto: estava em casa, e o dia recomeçava, e a água caía, o torpor escorria, a roupa vestia a chave girava – até depois – e a manhã o recebia. terça-feira era dia de julio.

11/06/2007

talvez saísse às sete-em-ponto.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:45

ninguém precisou falar palavra alguma, a informação apareceu sozinha no visor. meia hora depois, como se tivesse trazendo alguma novidade, a vozinha metálica e tímida anunciou o novo horário: 7h05. do outro lado, em frente ao portão de “número b” (viram a colega cutucando e falando “é LETRA B”), a mocinha suspirou e se encolheu por entre os muitos montinhos negros que cobriam as pilhas de roupas e cosméticos. a mãe fez o mesmo, só que em vez de um bico e uma ruga, como ostentava a filha, largou uma praga que de tão matreira poderia acertar ela mesma. especularam se a outrazinha lá era vesga ou o quê, porque a informação há muito já estava lá, reluzente para aqueles que precisavam de alguma perspectiva, mínima que fosse, e ela só repetindo o que todo mundo já sabia. bom, talvez o homem que roncava com um casaco por cima da cabeça não soubesse, ou talvez não quisesse saber mesmo. se tivessem coragem de lhe perguntar, provavelmente atiraria um “melhor não saber” bem nos olhos daqueles que se preocupam excessivamente com os outros. essas letras amarelas, que aparecem automáticas do nada, nunca brilham pra todo mundo – quem não sabe disso?

10/06/2007

natal às 17h30

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 14:23

veio, mas sabia que aqui estariam enterradas as memórias – adubo dessa terra escura que corre veias adentro e faz o sangue mudar de cor. se enroscar na pele oleosa, na gordura mole que escorre dos braços: sacrilégio não pensar nisso agora, quando tem pão fresco, coberto de queijo bem fininho. deita-se torto, pendura-se na verdade, dóem as costas, as costelas travadas e o torpor abissal que mora nessa permanência. o pão ainda tá pela metade, coma logo antes que V. acabe com tudo, sabe como ele é, né?

quando alguém toca nessa imensa bolha de sabão que é o passado, já o faz com a certeza de que tudo vai explodir e espalhar particulas por todos os lados. é o tipo de elixir que arde nos olhos. ela olha triste, você mal chegou e já vai embora, ao menos coma mais desses pães que fiz pra você.

04/06/2007

eneagonal

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:28

quer, mas não olha, não encara, tem medo do bicho só porque percebeu uma ponta de garra escondida- mas quem disse que as garras querem atravessar carne alguma? a-dúl-te-ra que roça, dança se abaixando, põe a mão no pescoço e vira meio assim como quem passar dar (essa é a palavra: DAR) a idéia de ser provocante. você quer ver meus peitos? mexe a barriga, regurgita os clichés capturados das novelas e cospe, meio pro lado, um chiclete rosado, esfolado por marca de dentes que irá ficar ali, no canto do piso, à espreita de um pé que lhe dê uma nova forma. depois girou, topou nos afoitos e decidiu que iria, naquela noite, ficar sozinha com seus dedos.

em fatos reais

Arquivado em: fun — by ignoremode @ 16:17

- não é musga, é música. fale junto comigo: MÚ-SI-CA.
- musga!
- não, lesada, é música. fale junto comigo: MÚ-SI-CA.
- músiga
- MÚSICA!
- musga!
- ai meu deus… diga MÚ
- mú
- SÍ
- sí
- CÁ
- CÁ.
- agora repita tudo junto, e rápido.
- MUS..GA
- não é MUSGA, n., é MÚSICA
- então, o que é que eu tô dizendo? Musga.
- MÚSICA!
- MUSGA!
- enfim, ainda tem suco de laranja?

tísica

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:11

via imagens nas paredes, vultos que atravessavam da cozinha pra área de serviço, vozes que lhe sussurravam hipóteses ardidas e se convencia, sistematicamente, de que aquilo era produto de sua busca por uma explicação e uma noite de sono. tinha noites, aquelas mais silenciosas, que o estômago doía de tanta ansiedade, e suava ao imaginar cenas em que as pessoas se encaixavam e espirravam seus segredos bem no meio dos olhos umas das outras. o telefone dormia embalado em seu recuo – quanto mais distante, melhor. não vibrava, não gritava, nem implorava por um pouco de atenção. as horas saltavam ao lado da bacia cheia de escarros, idéias coaguladas que, juntas, até formavam uma textura interessante.

01/06/2007

deixe estar!

Arquivado em: guzimeire — by ignoremode @ 15:35

apois na semana passada seu apolinário chega e fala “guzimeire a gente nao vai mais precisar de você”, eu disse tá bom e não quis nem saber, juntei meus troço e saí pelo elevador social – queria ver se o porteiro ia brigar comigo de novo porque eu tava com a moléstia naquele dia, era capaz até de torcer o pescoço dele. peguei o ônibus sozinha, cheguei em casa e fui direto ligar pra silmara, aquela rampeira, e ela logo me aconselhou a botar eles tudinho na justiça, tirar tudo que puder. fiquei meio desconfiada se era isso mesmo, porque silmara não é digna de confiança. tu acha? uma mulher que casa com um preto feio daquele só pra ganhar uma tv de prata, praça, plásia, sei lá? não, minha filha, é demais pra mim, eu só caso por amor, não sou dessas não. sou que nem aquelazinha de jeito nenhum, não saio por aí fazendo safadeza com os macho não, minha filha. então, aí eu desliguei e liguei pra dona murielly, que é a entendida dessas coisas, pra saber se era aquilo mesmo. aí ela indicou um adêvogado só do bom, que era pra eu ir lá dizer que nunca me assinaram a carteira, que eu já to lá faz mais de cinco anos, nunca me deram férias nem nada, aqueles bando de filho da puta, eu que tanto limpei a bosta daquela gata, tinha que até passar cueca, calcinha e meia, dei de comer praqueles meninos malcriados dele, limpar o quarto daquela gorda imunda que só tem retrato de homem tatuado nas parede, deus me defenda de um homem tatuado. parece que saiu da prisão. eu, hein. ô raça nojenta só é aquela de seu apolinário, viu? eu vou é mergulhar de cabeça nesse processo, porque quero até o apartamento, quero ver tudinho no mei da rua, pedindo esmola. primeira coisa que vou fazer é tocar fogo naquele carro preto que parece de defunto, que ninguém pode encostar porque já dispara um alarme e sei lá o que mais.

saiba o que vai acontecer nas novelas desta sexta

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:57

descemos as escadas do metrô batendo os queixos por causa do frio de maio – aquele que é mais frio que o próprio frio de agosto – e os olhos gaúchos esverdeados me deram um ultimato: encosta aí que eu preciso te contar um negócio. a laje fria gruda nas costas, assume sua superioridade na troca de calores, a respiração úmida mapeia o pescoço, um tanto cega, árida, típica de quem explora um território desconhecido. encontra o centro do planeta, pétala macia que encosta aqui, abre-se, revela seu miolo vermelho, desabrocha lá dentro. a moça de voz metalizada anuncia que já é hora de fechar, queiram fazer a gentileza de se apressarem, obrigado, e a corda se rompe. passa uma, passam duas, passam três. fico aqui, bom te ver, bom te conhecer, enfim.

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