31/07/2007

fantomas

Arquivado em: rien — by ignoremode @ 11:29

D., vestido de qualquer coisa, entra e sai o tempo todo. diz bom-dia, senta, folheia o jornal, traz debaixo do braço umas novidades frias, livros velhos, folhetos de eventos passados – coisas de 2004, mais ou menos – e nunca acrescentou grandes cores ao nosso ofício diário. é um fantasma dos corredores corporativos. sempre está ali ou acolá tentando engendrar algum laço social com os passantes. esses dias d. me perguntou se eu me interessava pelo aquecimento global. falei que sim, meio indiferente, e recebi uma revista grande, feia, de papel muito branco e duro, que versava sobre arquitetura e as novas configurações do planeta. li duas linhas, abandonei a revista e ele se ressentiu, pelo que me dei conta mais tarde. não discuti o tema, e ele parou de me perguntar se eu gostava disso e daquilo. de repente me tornei desinteressante pro d., um quadro barato pendurado na parede cor-de-nada. para o próprio fantasma, eu me tornei um fantasma – e vi de perto como somos incapazes de enxergar além da retina alheia.

30/07/2007

pesticidas

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:38

pôs conhaque no copo e bateu na mesa: agora falemos dos intelectuais, esses bestas que não tocam a mim nem a ti. consegues, por acaso, enxergar o deleuze, barthes ou guattari tendo uma relação sexual? (…) não, primeiro porque jamais imaginaria qualquer ser humano,  catedrático ou estivador, mantendo uma “relação sexual”. as pessoas trepam, S., ou, sei lá, dão umazinha, funfam, dão uma bimbada, não sei. falar “relação sexual” é tão pernicioso quanto “fazer amor”. porque amor não se faz, já nasce pronto, está nas prateleiras do carrefour em promoção – pague 400, leve 500ml – dá até pra recorrer ao procon, caso o sentimento não o satisfaça por completo. mas me ocorreu agora que, talvez, relação sexual combine com a segunda pessoa, esse tempo verbal odioso que você costuma a usar. você concorda? tu concordas? amor é produto. relação sexual é segunda pessoa. relação sexual és tu.

rolda molda

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:26

puxava suas barbas, balançava nela, enroscava os dedos e me perdia dentro da mata branca e grisalha que escorria pelos ombros, peito, barriga, coxas, pés e seguia pra muito além do subsolo. descia pelas curvas de gordura, escorregava pelas escamas da pele. H. gostava da denominação “subsolo”, parecia algo além do planeta, ou mais perto da china. e eu continuava achando que china era marte, saturno, vênus, menos terra. água quente caía barulhenta na bacia, hora de enfiar os pés. a pele enrugada, congelada, atravessava a moita de vapor e se acomodava no ventre transparente. ouvia-se um suspiro que inundava a sala inteira. espirro vai, vem e retorce o pescoço, incha as veias, paralisa um lado só. acabou meu frenesi, falei-lhe, só restou uma imagem velha e apagada de você – sonho com sua língua no meu pescoço às vezes. por acaso aconteceu hoje, o único momento aconchegante em meio a tanto frio. queria demais, mas, como eu já disse, apagou. você é nada mais que papel amarelado agora.

27/07/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 18:47

quando está longe, sinto uma culpa fenomenal. nao quero, nao preciso, me faz mal achar que estou empenhando muita energia naquilo, enfim. mas quando o vejo, tão bonitinho e inocente, penso que fiz a escolha certa e que vou ser feliz. afinal, nao sei mais o que importa.

03/07/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 23:51

subiu pelas pernas uma certa sensaçao de leveza depois que se desfez das materializações do passado. quer dizer, nao se desfez no sentido de jogar fora, apenas tirou do domínio público e as enfiou em uma caixa bonita, ornada com um grande laço encarnado. eram só suas agora, e poderia recorrer a elas sempre que achasse necessário. divertia-se, com um pouco de vergonha estampada nas bochechas, com suas imaturidades de quatro, cinco anos atrás. escorria pela pauta uma letra bonita, de caligrafia, que às vezes, repentinamente, tornava-se feia, afetada, ou pretensiosa demais. havia um certo rancor na curva do A, alguns recalques no tracinho do T, saudosimo no M e no N e muita beleza no H. não há quem controle essas coisas. dona alice dizia (é mentira, ela nunca disse) que tudo o que a gente é está estampado, de alguma forma, no nosso corpo. precisamente às 23h40, tampou a caixa, fechou o laço com força, ergueu-se, desequilibrou-se um pouco com o peso das memórias e se esticou para alcançar o alto do guarda-roupa: pronto, bastava isso. agora só deus sabe quando aquilo lá será aberto novamente – talvez nem Ele saiba.

Provido por WordPress.com