vou saltar de um avião. hoje ou, no mais tardar, amanhã de manhã. vou despido, sem pára-quedas, sem cartas, sem balões de ar pra amortecer a queda. vou saltar porque quero saber como é a liberdade absoluta.
19/09/2007
chuleta
tão magra, meu deus! ia e vinha, cambaleava pela sala, sem saber se caía na poltrona ou se voltava pra cozinha. na real, ela sempre dava impressão de que havia cheirado todas – pupilas dilatadas, assertiva, sempre segura das próprias idéias. mas era apenas um corpo frágil e uma voz meio rouca, daquelas que podiam assustar se resolvesse aumentar o tom. enfim resolveu esticar-se na cadeira, arreganhou as pernas e acendeu um cigarro. tinha esse jeito estranho de fumar, sempre olhando para a ponta acesa e esticando a cabeça para cima antes de soltar a fumaça. não era exatamente um charme, mas há que se dizer que aquela moça tinha uma certa personalidade em tudo que fazia.
18/09/2007
mater
parece que tem uma comunicação telepática entre mim e ela, não sei bem explicar. só sei que quando as nuvens cobre o sol, recebo uma ligação. estou com saudade, meu filho, você tá bem? aí sou compelido a dizer que sim, porque senao serão duas preocupações. mas a vontade é de me desfazer ali mesmo, sem restrições, virar lama e me moldar novamente ao simples som da sua voz.
17/09/2007
a panela
foi por causa de um riesling suíço – um presente, na verdade – que voltou essa vontade louca de voltar a cozinhar. fazia tempo que não remexia a cozinha, sujava louça ou arriscava uma refeição decente feita de sobras indecentes na geladeira. mas aconteceu, e foi por causa desse vinho que sentiu que já era hora de abraçar seus velhos hábitos, dialogar com a casa novamente. uma bancada nova para a tv, talvez: jogar fora isso e aquilo, passar um rodo, abrir a janela e deixar o sol entrar. porque só hoje, talvez amanhã, a casa se abra para seu filho novamente.
13/09/2007
drops de melancia
sei lá, cara, esse cheiro de melancia me faz querer colocar todo esse amor mal cozido, mal preparado e mal saboreado pra fora. não sei explicar o porquê, mas arriscaria um palpite meio cego. é mais ou menos o seguinte: não tem muito a ver com colegiais, só porque elas carregam esse perfume de balas e bombons. é que esse cheiro artificial de drops de melancia mexe comigo de alguma forma. talvez me leve de volta a mil novecentos e nao-sei-quando, bem na época em que eu estava depertando pro amor, e esse cheiro me lembra a T., que estudava na 6B, bem em frente à minha sala. T. era baixinha, um cabelo tão cheiroso e um um nariz magnífico – sem falar em sua boca, que ainda hoje, sem qualquer esforço, consigo lembrar o recorte. mas continuo reforçando: nada a ver com colegiais. ou pelo menos não no sentido “eu, velho, aqui no presente e elas, saltitantes, lá no passado”. não, não… juro, porra! jamais namoraria uma colegial. olha pra mim, com essa barriga e tal. mas sei lá, bicho, parece que eu sou levado de volta a um tempo em que a gente sonhava com mais facilidade, sem tantos filtros adultos pra enquadrar a imaginação, imaginar cenas que hoje seriam tão cafonas – te falei dos filtros, né? em suma: o cheiro de melancia traz T. de volta às minhas memórias, e eu a desejo da mesma forma que desejei em mil novecentos e nao-sei-quando, e tenho vontade de sonhar da mesma forma que sonhava em mil novecentos e nao-sei-quando. mas aí vêm os filtros. eu te falei dos filtros, né?
06/09/2007
iCar
a especulação de que a Apple e a Volkswagen estão planejando um iCar me deixou de cabelo em pé: porque provavelmente eu vou querer, mas não vou poder.
tim festival
nem pensar.
só sairia de casa pra ver:
a) pj harvey
b) regina spektor
c) portishead
d) fiona apple (se ela prometesse não cantar nenhuma música do último álbum)
e) erykah badu (tenho curiosidade)
f) jeanne moreau
