30/03/2008
la leche
rachael
veja só isso, é de morrer. nunca ri tanto em minha vida – e olha que nasci nao faz nem duas horas. quando chegará? estou cansado do vento na cara, de olhar por essa janela, de atravessar a cidade com a vista que tenho daqui. por onde posso começar a me confundir? tem uma pista de onde eu acho auto-sabotagem pra comprar a quilo? nada me interessa, exceto as pílulas que você carrega no bolso.
wonder where you’re going, what you’re doing, what kind of air you’ve been breathing. bottled air?
queria (muito) saber o nome daquela música, aquela que faz “tchu… tchuru… rururur…”.
28/03/2008
malas prontas
estão ali, cinzentas, encostadas, esperando chegar a hora. mas relógio não anda, você não vem, os olhos recorrem à janela, à pia, a uma última checada no quarto. há um certo cheiro familiar, mas vem da cozinha ao lado – já reparou que nada familiar vem da gente? não construímos nada. a ausência já foi contabilizada duzentas e setenta e quatro vezes, mas agora a ausência se ausentou de vez. só deixou um pouquinho de poeira, mas a guzimeire pode dar um jeito nisso amanhã de manhã. amanhã de manhã já não haverá ausência, nem malas à epera de um bote que as transporte para o outro lado da ilha. veja, meu irmão, não importa que seja o ano 1 – as coisas continuam do jeito que sempre foram, só alguns signos mudaram. nunca haverá o ano da sua vida. tanto que te pedi pra não se apegar a essas esperanças atrais, né? bom, agora já não tem jeito. você vai para um lado, e vou te seguir na reta paralela.
26/03/2008
a retirada
se você acordou com uma cauda pendurada, não é um problema meu. vai ter que conviver com isso até não-sei-quando – talvez até chegar a sua hora de abotoar o paletó, talvez até encontrar um cirurgião que dê jeito, talvez caia sozinha com o tempo ou talvez, mas muito talvez, seja só uma paranóia sua que tomou corpo e que, quiçá, se desmanchará daqui a duas ou três horas. mas por favor não ponha a culpa em mim. e outra coisa: pra ser bem sincero, achei que já tivéssemos dado esse salto na escala evolutiva da espécie, mas, hum… ainda gosto dos seus olhos escuros, escuros-azuis, poços sem fundo que cheiram a limo e emitem esse insistente coachar de rãs. barba mal feita, cabelo escasso, um recheio extra de gordura na barriga, nos peitos, nas costas, nas mãos, nos pés, no cérebro. ah, bicho, se você soubesse que essa cauda é o menor dos problemas… pior é essa marca de zorro que você imprimiu aqui dentro e que não sai nem se eu puser de molho no vanish.
tang cupuaçu
vê lá, menino, na lata vermelha. não nessa. essa é a azul, idiota! esse seu cabelo é péssimo, sou obrigada a dizer. já passei muita vergonha na rua por causa desse ninho de mafagafinhos. então vai lá, na lata VERMELHA, e pega a pomada pra abaixar essa arapuca. onde já se viu, um marmanjo nessa idade ainda andar por aí com esse cabelo. É a vermelha, imbecil. Não sabe o que é vermelho? Ou nasceu daltônico? Esquece, eu apanho pra você.

