estou planejando minhas férias, edgar. férias curtas, mas férias de verdade, remuneradas – porque, você sabe, edgar, eu passei um bom tempo de férias-forçadas, imerso em água sanitária, tentando me livrar das nódoas do passado. foi dureza, edgar, mas agora a coisa mudou. e nessa mudança calhou que eu devo tirar férias daqui a uns meses, edgar. férias, edgar, férias! já pensou? férias! faz tanto tempo que eu não sei o que é isso. imagina acordar e sair por aí, debaixo de sol, chuva ou granizo, vestindo uma cueca sua por baixo do sobretudo, edgar, pra não me esquecer jamais de você enquanto eu estiver no continente distante.
23/04/2008
18/04/2008
fogo de palha
pedacinho a pedacinho, o que era sólido vai derretendo, e a fumaça de uma hora pra outra se espalha, toma conta da casa, passa por baixo da porta, encontra o corredor e se aloja nas narinas dos passantes. dá pra ouvir um “que cheiro bom” embolado em meio a um suspiro, diminuído pelo giro da chave, pelo bater das maçanetas. a cebola encontra a manteiga borbulhante: a alquimia ganha cor e corpo – e se desembesta para as ventas alheias, pelas janelas, pelos póros das paredes, por todas as frestas possíveis. acontece finalmente a avalanche de carne – a fumaça escurece um pouco – e a labareda cresce agitada. mexe, vira, cuidado com o fogo, “cheiro bom. cheiro bom”, mexe mais um pouco, salpica uma pimenta do reino aí – não, pimenta não – então deixa assim mesmo, só carne e cebola e manteiga. porque quanto mais simples, mais gostoso. os cubos dourados se alojam no prato, a ânsia de destruir o castelo se acirra, os narizes vizinhos sucumbem aliviados, esfomeados, e correm tateando ao encontro de suas próprias panelas.
11/04/2008
08/04/2008
gourmet
você faz parecer fácil essa arte de pular de galho em galho. pois não é algo que eu poderia fazer, monsieur, porque, ao contrário de você, sou apenas um macaco gordo e macilento, sem viço, cinza e inerte, com o corpo estendido em praias mortas. mas isso não impede que sejamos amigos, monsieur. aproxime-se e veja por esses binóculos onde as pernas da madame estão acostadas, lá no pico da montanha, descendo curvilíneas até o meio do vale. não te dá vontade de escalar essas pernas, monsieur? mordê-las, monsieur? embalá-las em papel-alumínio e aquecê-las durante 45 minutos em forno preaquecido a 180º , monsieur? regadas com um bom azeite, monsieur, servem com fartura até 30 homens famintos – os seus homens, monsieur.
07/04/2008
a A
a. se retorce com as dores e a ferrugem avança pelos seus ossos. não sei o que fazer além de me agachar, tapar as orelhas e me refugiar nesse silêncio opaco e formigante, afrouxar as pernas e cair nesse barulho estranho que vem de dentro da cabeça. já chega. é hora de tomar dois, três, quatro, cinco goles dessa coisa forte, ardida e esperar que a tremedeira passe. ao que vejo, rezar não adianta. esperar também não. chegamos ao ponto, a., em que não conseguimos mover em nenhuma direção: nem pra cima, nem pra baixo, nem pro lado, nem pro outro, nem içar as velas, nem cuspir na ciência, nem na literatura rasteira. estamos engaiolados na nossa própria pequenez, a. desculpa não poder trocar de lugar contigo. eu o faria, se pudesse.
balada
hoje é seis ou sete? não importa. seis ou sete de abril é o dia da mentira, e eu vou te pregar uma peça. primeiro a gente dança, faz confissões extraordinárias na varanda e em seguida, sob o bafo úmido da cidade, observa as nossas anáguas empinarem com vento. veja como essas brincadeiras, tão simples, revelam as diferenças entre mim-e-ti: eu levanto a saia porque gosto de sentir o refresco nas minhas virilhas suadas. você faz porque se delicia com os uivos dos babuínos lá embaixo, aplaudindo e gotejando com a visão do seu sexo. eu danço porque gosto de sentir seu hálito no meu pescoço. você dança porque gosta de exercitar as pernas. eu te revelo todos os segredos porque confio em você. você me revela os seus porque isso te diverte – ademais, nem sei o que você me conta é realmente verdade. suspeito que não.
