pedacinho a pedacinho, o que era sólido vai derretendo, e a fumaça de uma hora pra outra se espalha, toma conta da casa, passa por baixo da porta, encontra o corredor e se aloja nas narinas dos passantes. dá pra ouvir um “que cheiro bom” embolado em meio a um suspiro, diminuído pelo giro da chave, pelo bater das maçanetas. a cebola encontra a manteiga borbulhante: a alquimia ganha cor e corpo – e se desembesta para as ventas alheias, pelas janelas, pelos póros das paredes, por todas as frestas possíveis. acontece finalmente a avalanche de carne – a fumaça escurece um pouco – e a labareda cresce agitada. mexe, vira, cuidado com o fogo, “cheiro bom. cheiro bom”, mexe mais um pouco, salpica uma pimenta do reino aí – não, pimenta não – então deixa assim mesmo, só carne e cebola e manteiga. porque quanto mais simples, mais gostoso. os cubos dourados se alojam no prato, a ânsia de destruir o castelo se acirra, os narizes vizinhos sucumbem aliviados, esfomeados, e correm tateando ao encontro de suas próprias panelas.