20/05/2008

dissabores [epílogo]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:55

tamara de lempicka

essa contração no baço me leva ao estranho mundo de ramona. três pontadas de lado, duas pra esquerda, uma pra direita, um suspiro e doiscomprimidos. uh, rá, eis que aparece o diabo da ramona, grande, espaçosa, sapato branco 38/39, não lava a louça nem passa as roupas. i ain’t no ramona, i ain’t no ramona – o carrinho de sorvete anuncia no fim da rua. na cozinha onde ramona cozinha a caçarola encardidinha encaroça o picadinho mal feitinho. na cozinha onde ramona cozinha tem saia rodada, fivela, goma no cabelo e ciclete duro que faz bolinha, explode na cara e mata a pobre moça sufocada.

agora vem ramona embaladinha na caixa roxa de madeira de caixote – sem cozinha, sem picadinho sem seu tamanho descomunal. as contrações passaram.

12/05/2008

dissabores [o decorrer]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:01

vamos esmagar flores pra fazer chá. chá-chá-chá. nos países onde só se chega voando fala-se té. té-té-té-chá-chá-chá. dancemos? dancemos. mas peraí, peraí, tive uma idéia: dancemos sobre as flores, assim matamos dois coelhos com uma única cajadada. matamos dois coelhos pra colher duas xícaras de chá-chá-chá-té-té-té. vai, se aproxima e pisa sem dó nas pétalas e nos botões. recomenda-se fortemente evitar os espinhos e as roseiras, porque ambos são amargos e truculentos e dóem quando pegam a gente de jeito. agora vem, isso, sem pensar demais. cruzemos os braços e agarremos a cintura um do outro. porque dançar só é gostoso quando seu peito roça minha camisa e rodopiamos aleatórios ao som de nada – já reparou no tempo que a gente perde de tocaia à espera de algum tolo capaz abrir a tampa dos nossos galpões?

quer chá de que, meu amor? tem de hortênsias e tulipas e cravos e olivas e calêndulas e vetiver e rosmarim e acácia e peroba e jatobá e mogno.

morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.

já, já, já, já morena velha eu
quero chá.

dissabores [prólogo]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 11:55


[camilla engman]

bichinha magrinha, sozinha, luzes no cabelo, nike shocks, vaga pelas ruas em busca de amor. desce a augusta, atravessa a d.antônia de queirós, cruza a rego freitas, olha, não acha, vaga pelo arouche, espia sobre as mesas na calçada. bichinha-magrinha quer alguém que se encaixe nos seus sonhos de menina – um homem forte, de mãos grandes, voz grossa, topete curvado, peito marcado. quer que o macho se enrosque no seu corpo e ofereça toda sua doçura e suor ao seu par mirrado de traços cafusos. bichinha-sozinha quer ouvir apolo dizer baixinho em seu ouvido o quanto precisa dela, que sem ela não viveria, que a vida só faz sentido porque ela, a bichinha, existe e o completa. bichinha-magrinha quer um pai-amante, super homem amplificado. sozinha-novinha pelas ruas da metrópole em busca de amor, passa na sé, desce ao terminal d.pedro, pega um ônibus para o ibirapuera às três e meia da manhã. “faço dezenove esse mês”. é a idade de casar e servir o seu homem. bichinha-magrinha-sozinha acha que hoje encontra sua metade. mas a noite desfalece e ela espera o trem, que não virá , comendo cachorro-quente com purê de batatas.

11/05/2008

garganta

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 22:48

sua garganta é minha, na verdade. e está ferida, ardida, pisoteada. andar de botas na garganta alheia? que hábito feio! nada que já não fosse esperado. sei que você anda de botas por gargantas, tímpanos, trompas, baços e cabaços sem respeitar os carpetes nas entradas que dizem “limpe os pés” em letras vermelhas felpudas.  portanto, o que é a minha (sua) garganta pra você? (…) mas deixando de lado o assunto “sua (minha) garganta”, vi o preço da passagem: as duas dão quase cinco mil reais, bicho. é muito dinheiro! e detalhe: as duas são pra mim. você fica aqui mesmo, paralisado, com a sua (sua) garganta.

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