sua pele, seu cheiro, seu nariz… só existem no mundo das senhoras oníricas, aquelas roliças e nao totalmente feias, servis e facilmente despercebidas. seus olhos, sua postura, sua voz… não habitam o mesmo mundo que o meu. não falamos a mesma língua – sequer trocaremos línguas um dia. você pertence às gorduchas-dos-sonhos, não a mim. poderia dizer que seria mais feliz se me apoiasse em um dos extremos, mas aqui, no meio-termo, não sei para que lado mirar e disparar os tiros que lhe abateriam. também não consigo te identificar em meio às revoadas. minha pontaria é cega, de qualquer forma.
26/07/2008
21/07/2008
24 de julho
Você insiste tanto para que eu continue com o desenho, que eu bem preferia não tocar nesse assunto, para evitar dizer-lhe que tenho feito muito pouco nesses últimos tempos.
Jamais fui tão feliz, nunca a minha sensibilidade pela natureza, até pela pedrinha mais insignificante, foi tão completa e tão profunda, e todavia… não se sei como dizer tudo isso… minha faculdade de expressão está tão fraca, tudo flutua e vacila de tal modo diante de mim, que não posso fixar nenhum contorno. Mas acredito que, se trabalhasse a argila, ou a cera, talvez conseguisse transmitir o que tenho no espírito. Se isso persistir, vou pegar argila e amassar, nem que seja apenas para fazer bolinhas…
Três vezes comecei o retrato de Lotte, trêz vezes fiquei envergonhado. E isto me deixa ainda mais aborrecido porque há bem pouco tempo eu conseguia reproduzir-lhe os traços com muita fidelidade. Acabei conseguindo fazer um esboço, e é preciso que isto me baste.
goethe
15/07/2008
salzburgo
o que eu posso dizer, donantônia? todas as perspectivas, sejam elas amplas ou medíocres, me assustam. todas. mas todas mesmo, pode acreditar.
08/07/2008
coleção outoninverno
Escrevi isso em 2003:
quero que amanhã o dia acorde em agosto. e que fique escuro mais cedo. e que precise de edredons pra dormir. quero dar pulos no banheiro enquanto espero o chuveiro esquentar. quero pensar duas vezes antes de sentar na privada fria. quero sofrer pra lavar a louça. quero tomar sopa de ervilha ou de cebola. chocolate quente. desvairadamente. quero usar casacos e muitas camisas – uma sobre a outra, do jeito que eu gosto. quero vidros embaçados. quero cortinas fechadas e me deliciar nos tons sóbrios que os dias frios trazem.
cinco anos depois, posso dizer que tudo o que eu quero é exatamente o oposto.
sereno
enche o copo até a borda, moço. hoje é dia de negociar com aqueles filhos da puta inclementes. menos gelo, mais birita – não precisa economizar. talvez seja o dia de você tentar furar algumas regras – que tal, hein? já deixa a garrafa aí porque daqui a pouco, como eu disse, aqueles infelizes vêm me atormentar a paciência, me fazer tropeçar nas palavras e me enfiar em becos sem saída. parece moleza pra você, que está protegido pelo balcão de cimento maciço, mas olhe para mim: vulnerável, mal vestido e sem grandes posses para enfrentar o mundo olho-a-olho. então, meu caro, peço que não seja você também um cretino: apenas encha o copo até a borda sem falar nada, por favor.
07/07/2008
remendo
ponha as mãos em mim. amasse minhas tripas, destrua minha forma, reconstrua à sua vontade, me refaça à sua maneira, do jeito que você sonha como um homem-deve-ser. quero ser seu idealismo, seu video-game, um soldado sempre pronto para atender às suas expectativas. ponha as mãos em mim. PONHA AS MÃOS EM MIM. veja como sou maleável, consigo desgrudar os braços, girar a cabeça a 180º, pôr os calcanhares na nuca, entortar os ossos, fazer a barba crescer, diminuir, ser loiro, negro, amarelo, índio, ser eu mesmo, ser você, ser seu projeto. ponha as mãos em mim, por favor.