Um dia eu chego, já disse, e talvez precise repetir um pouco mais adiante, na metade do caminho: um dia eu chego. porque você, baby, nunca me ouve – ou nao acredita – ou finge que não sabe de nada. se é assim, beleza. você foi quem quis desse jeito. agora estamos quites, posso dizer sem culpa que também nao quero entrar nesse trem, cruzar a sibéria inteira e desaguar na china só pra te ver. na sua cabeça tudo é bem mais simples do que realmente é. mas cansa, viu? e cansa bastante. vão ficando os pedaços a cada parada, outros afundam no baikal e as sobras são furtadas na mongólia. daquela vez me abraçou, mas deixou cair no segundo seguinte. talvez eu não queira mais chegar. bjo.
30/10/2009
15/06/2009
cascalho do morro
Coxas moças que se roçam, quentes e úmidas, num entremeado danado de pêlos, suor e hálito alheio – passa disso? certamente não. aí depois do sol posto, quatro horas adiante num dia quente, esquece de tudo e senta no chão de cimento, abaixa a cabeça, inclina as costas e faz promessa pro santo, que é dia dele. fumaça enferrujada de lamparina inunda a casa, mistura com a parafina, abraça as ventas e diz que é hora de rever o passado, olhar para madrinha-chica deitada, seca, enrugada numa rede, escondida atrás da luz oscilante, toda miúda a pobre, mal desconfia que já está morta faz anos. passa pelo quarto, olha o sobrinho inválido entretido com os dedos dos pés numa rede, fazendo sons de gado. madrinha-chica pensa que betinho é homem feito já, quase 40 anos, um instrumento que se revela imenso algumas vezes ao dia, barba feita, penico encostado ao pé da parede e tantas horas ainda para contar.
17/03/2009
amelinha
piranha, vaca, injeitada de satanás, sapatona, vadia, piriguete, ordinária, filha de sapirico, messalina, marafona, cocumbina, demônia, rapariga, puta, subnitrato de pó de merda, vulgar, cafona, escrota, vagabunda, estrume, fedida, pestilenta, macaca, jumenta, égua, cavala, catraia, embuste, chupadora, trava-rua, catimbó, ebó.
06/02/2009
um macaco para S.
Escape, originally uploaded by Pucky learns 2 fly.
hahaaha, nao falei? isso é muito previsível, meu amigo. todo mundo sabe como a S. opera – e não é da maneira mais suave. seria preciso alguém com muito trato social, o que não é o seu caso, para trocar uma idéia com ela, falar que esse hábito de escalar as paredes da sala suja o branco-gelo, deixa marca de peitos, pernas, pés e suor. não é legal, não mesmo. ficam o mau cheiro, as histórias e as pequenas marcas de tormentos para gente lembrar todos os dias.
já pensou em alugar um macaco pra S.? talvez fosse uma boa idéia, o que você acha? não deve ser caro. porque comprar uma casa com vista para a montanha só a conteve por alguns minutos – agora, não dá a mínima. gastamos tudo o que tínhamos pra nada. nem em dias de erupção, te digo, nem em dias em que a lava alaranjada entra pela casa dissolvendo nossos móveis e lambendo nas nossas pernas, ela pára para prestar atenção ao que os convivas falam. e fica chato pra mim, pra você, pra mamãe e pra dona zeli – que não é nossa parente nem nada mas está sempre aqui. é como se fosse da família.
penso que um macaco a acalmaria, tenho essa intuição.
27/01/2009
Não sei você, mas…
… se eu tivesse um blog, seria estilo diarinho, sei reconhecer minha pequenez. dona lourdes ensinou que a gente só consegue olhar para o mundo quando tira os olhos das tripas. e os meus continuam lá, rolando pra cima e pra baixo nas curvas retorcidas dos intestinos, seguindo o fluxo dos excrementos. não dá, bicho, pra arrancar um pensamento articulador, fazer uma análise, falar algo brilhante e edificante quando tudo que acontece é tão chato, tão cinza, tão já-dito. não dá. obama, faixa de gaza, CEM (Crise Econômica Mundial, agora como instituição), queda na produção industrial. nada parece mais interessante que meus acontecimentos menores: pessoas que beijei, desprezos que recebi, fofocas de trabalho, ouvir a vida dos amigos e dos inimigos, enfim.
17/08/2008
pensamentos compensatórios
as flechas ligeiras chegam antes, rasgando o vento e se alojando nas paredes. depois vem a batida do tambor, os passos, os gritos de guerra e, finalmente, a inspiração profunda cheias de pensamentos-diretivos, do tipo “você pode, você é capaz”. hora de enfrentar os homens armados, tomar bala no peito, enfiar a faca no pescoço do outro. mas as células nao assimilam e o pensamento é atingido por um projétil, por outro e por outro. no fim, você volta a ser o que você sempre foi, criaturazinha miúda, cheia de derrotas nas costas – as mãos cheias de sangue, o corpo vazio e suspenso. ninguém sabe o que você quer. mude de nome e de cidade, tente nascer de novo.
15/07/2008
salzburgo
o que eu posso dizer, donantônia? todas as perspectivas, sejam elas amplas ou medíocres, me assustam. todas. mas todas mesmo, pode acreditar.
17/01/2008
25/10/2007
cá-dique
havia uns viadutos que passavam rentes às janelas alheias, pelos quais cruzei, mas a cidade estava, de modo geral, sob alguma neblina densa. era como se houvesse um teto, um limite. e o céu? sei lá. não devia haver mais céu e o vaivém de veículos parecia tranquilo quanto a isso: acende os faróis, faz-se dia. havia uns caminhos confusos para se chegar na casa de N. Mas como eu já havia morado por aqueles lado, confiei no meu senso de direção e acabei acertando. era o mesmo prédio, só que em cercanias diferentes. tudo na cidade era meio torto – vertigens de impressionsimo alemão, golden-ratio, proporção áurea – alguém há de sentar lá e me dizer o que havia se passado naquela cidade. Entrei no prédio, um ambiente meio úmido e escuro, larguei as malas e convidei N. para um passeio. A porta dava para estação de metrô, onde os emaranhados de pessoas transitavam. foi bom ver gente. Até então, não havia visto viv’alma, só carros. a cidade original estava, na verdade, ali dentro. o mundo havia se convertido numa imensa estação de metrô. “parece blade runner”, falei. N. concordou. as cidades haviam tomado o corpo das fantasias de philip k. dick.
11/10/2007
horóscopo do dia
“Nesta próxima fase que vai de 11/10 (hoje) às 0h58 a 13/10 às 15h35, você estará vivendo um momento excepcionalmente favorável para fazer contatos com pessoas que estão distantes, ou mesmo viajar.”
quem sou eu para contrariar os astros, né?
31/08/2007
16/08/2007
é cego, é cego.
essa dor que se instalou na cabeça tem um significado: ódio à burrocracia. “burrocracia”: ato falho que revela as verdades que todo mundo já sabe. e agora, josé, qual a saída? relaxar e gozar ou tomar um sol no banco da praça. há moscas, há passantes, o cheiro enjoado de doce que vem nao sei de onde, talvez dum sobrado perdido em meio às paredes industriais. preciso de ajuda pra me desmanchar, não quero ser mais eu.
14/08/2007
01/08/2007
pois veja só o universo que criaram para os homens: empilhados em sofás sujos, gemendo a cada gole de cerveja, tremendo de tenta aflição com o correr do jogo. testosterona, barbas, cabelos sujos. coadjuvante, passa mulher, de vestido ingênuo, serpenteando entre a cozinha e a mesinha de centro com petiscos nas mãos. queria um dia ver uma televisão criativa. tem sempre essa preocupação, sei lá se é preocupação, em esticar os clichês até que eles nao aguentem mais e se rompam sozinhos.
27/07/2007
quando está longe, sinto uma culpa fenomenal. nao quero, nao preciso, me faz mal achar que estou empenhando muita energia naquilo, enfim. mas quando o vejo, tão bonitinho e inocente, penso que fiz a escolha certa e que vou ser feliz. afinal, nao sei mais o que importa.
03/07/2007
subiu pelas pernas uma certa sensaçao de leveza depois que se desfez das materializações do passado. quer dizer, nao se desfez no sentido de jogar fora, apenas tirou do domínio público e as enfiou em uma caixa bonita, ornada com um grande laço encarnado. eram só suas agora, e poderia recorrer a elas sempre que achasse necessário. divertia-se, com um pouco de vergonha estampada nas bochechas, com suas imaturidades de quatro, cinco anos atrás. escorria pela pauta uma letra bonita, de caligrafia, que às vezes, repentinamente, tornava-se feia, afetada, ou pretensiosa demais. havia um certo rancor na curva do A, alguns recalques no tracinho do T, saudosimo no M e no N e muita beleza no H. não há quem controle essas coisas. dona alice dizia (é mentira, ela nunca disse) que tudo o que a gente é está estampado, de alguma forma, no nosso corpo. precisamente às 23h40, tampou a caixa, fechou o laço com força, ergueu-se, desequilibrou-se um pouco com o peso das memórias e se esticou para alcançar o alto do guarda-roupa: pronto, bastava isso. agora só deus sabe quando aquilo lá será aberto novamente – talvez nem Ele saiba.
25/06/2007
vem julho, agosto, setembro: a primavera cai, salta aquela vontade descabida de botar o pé no tapete quente, atravessar o túnel de vidro e espremer-se entre tantos imersos no ar rarefeito. quero porque quero, viajo na idéia, mas sei que os números são bem mais caóticos – castradores como uma mãe recalcada. o medo de decidir é o que aperta o breque. faz um barulho estranho, um efeito estranho, uma sensação estranha, mas não é preciso mentir por completo. a verdade entreaberta é bem aceita, de forma geral, e não denigre sua dignidade tanto quanto a verdade vermelha. por falar em cores, por que não tenho camisas brancas? não há umazinha sequer. aliás, mentira: tem uma pólo velha, encardida, que só uso quando me faltam as habituais. pólo não me faz bem, nem me deixam com pinta de galã. é hora de fechar o olho, meu rapaz, e a travessar a sala cheia de olhares. faça como eu te disse: ponha as mãos na cabeça, prenda a respiração e vá cruzando como se estivesse tudo escuro. se bater em algum obstáculo, gire pro outro outro lado e ache uma saída possível. não, nem pensar: não posso te dizer aonde estão as saídas. deixe esse hábito de otimizar tempo para as jezebéis de cabelo ruim e discurso pronto.
21/06/2007
mania de confessar pequenas culpas e revelar fraquezas para que as coisas não parecessem tão ruins como eram na verdade. mas de pouco adiantava, porque sempre ia embora incólume, branco e sem expressão. tinha a si mesmo, o braço forte e protetor das suas idéias - e isso era tudo. sopa quente no verão, sorvete no inverno e agrião o ano todo. era dificilimo ser como eles, sabia, mas o que poderia fazer? nasceu torto, vai morrer torto. foi então que veio com essa história de jogar fora alguns demônios que sempre lhe foram úteis. agrupou os joelhos na nuca, girou o pescoço e arrancou com a língua pequena e afiada algumas minhocas que se instaram nas paredes.
17/05/2007
aviso!
quem já separou o modelão pra ir assistir a drawing restraint no resfest, um aviso: é o filme mais descompassado, mal feito e irritante do planeta – nem a trilha da björk salva. não digo isso por ser incapaz de entender um filme de “arte” (cof! cof! cof!), mas porque a proposta é realmente ruim, a execução deixa a desejar e as histórias paralelas não geram um todo relevante. e é longo, jesus, como é longo! não há “momentos” de alívo estétivo, nada que estimule por um segundo ou dois. matthew barney quis parecer provocador e significativo, mas acabou parindo um filho maçante. somente para punheteiros e afins.
16/05/2007
uma das minhas ilustras na tpm, versão online (na revista é mais bonito, viu?)


