dona risadinha, cheia de marra, chega meio mulata-de-televisão fazendo beicinho e levantando os cabelos cacheados com os braços, exibindo as axilas lisas meio escuras, o bronzeado dos braços-de-dentro, abaixando devagarinho, mostrando a ponta da língua, andando esquisito, enfim, essas coisas que o calor faz com a gente. penélope em fúria, gira, olha meio assim, do jeitinho que viu na novela, e deixa o cabelo cair nos ombros, nas costas, por sobre o rosto.
as mãos vao escorrendo sincronizadas pelo corpo, sobem a ladeira dos seios, desnudam um deles, descem e páram na cintura. espaço aberto para o bico negro e rígido emergir do meio da renda, moleque pretinho atrevido que quer meter o nariz aonde não é chamado. ela olha devagar, faz uma coisa com a boca – como se dissesse “ops.. escapou” – traz o rosto de volta, aperta os olhos e continua a lascívia da vulva quente, invocando a lava que precisa escorrer por entre as pernas, se contorcer com a dor das punhaladas. aproxima-se, mexe na cabeça do corpo macilento e atônito, esfrega o ventre nu nas faces vermelhas do moço, que, de olhos fechados, inala o cheiro de perfume e suor, passeia com a língua pelo umbigo, sente a textura da pele afastar-se e reabre as vistas para observar o cabelo ondulado subir novamente, o rosto se estreitar com as expressões ensaiadas, os dois peitículos balançar solenes ao som de nada.
cai o balaio, a castanha negra e oleosa está ali, a menos de um braço de distância. deseja-a a ponto de sentir uma vertigem nos testículos, algo frio que sobe pela bexiga, ataca o estômago e vem se agrupar na garganta. quer, e está nervoso. precisa daquilo para abandonar sua condição de homem, refazer-se menino minúsculo, entrar por aquele túnel e ficar ali, agachado no silêncio, corroendo a pobre mulher por dentro: parasita, sim um parasita. era aquilo e pronto!
ansiava como nunca pela fruta negra embutida, repleta de espinhos, precisava fartar-se dela, dormir no seu entorno, manter a vigília eterna que protege suas entradas e suas cavernas. os passos estavam quase-lá, notava o perfume abraçá-lo, enfiava os dedos no lençol, apertava-o, punha a língua para fora e esperava, passivo e predador, o ventre roçar ali outra vez- mas agora não o deixaria se distanciar, é pra valer, tremia pelo pedaço daa carne escura-de-bronze, canibalizaria os corpos para que ninguém se perdesse ao voltar para casa. mãos pequenas agarravam-lhe a cabeça, sufocavam-no contra a pele fria e elástica. estava ali a deixa pela qual tanto esperara: tirou da boca o braço áspero, envolveu as ancas, cravou os dedos na polpa mole das nádegas e mergulhou pelas brechas úmidas, cheias de sabor e sedimentos. abriu os olhos e percebeu que metade de si já havia ingressado naquele mundo imaginário, buscou a superfície para respirar por um segundo e percebeu, pela primeira vez na vida, que estava com um pedaço de carne viva e pulsante entre os dentes.