02/08/2009

desjejum

Arquivado em: carne e osso, o cozinheiro — by ignoremode @ 22:52

I like to think about the life of wine. How it’s a living thing. I like to think about what was going on the year the grapes were growing… how the sun was shining… if it rained. I like to think about all the people who tended and picked the grapes and, if it’s an old wine, how many of them must be dead by now. I like how wine continues to evolve. Like,
if I opened a bottle of wine today it would taste different than if I’d opened it on any other day. Because a bottle of wine is actually alive and it’s constantly evolving and gaining complexity. That is, until it peaks and and then it begins its steady, inevitable decline. And it tastes so fucking good.

(from Sideways)

26/02/2009

bonjour tristesse

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:02

pois hoje, entre uma revirada e outra, esperei acordar e ver a montanha, o céu pálido, sentir o vento ameno que sopra do pacífico,  mas não havia nada lá – só o cheiro familiar do quarto e dos lençóis. tateei as paredes em busca da textura amarela estranha, meio ébrio de vertigem e avião, tentando achar a janela com vista para o cemitério, a longa descida onde parava o ônibus 607, o reflexo do piso encerado. estavam lá tampouco. 8h10 e já não haveria mais as caminhadas longas, esbaforidas, a ânsia de entrar nos becos, escalar os cerros, tomar helados e comer completos.  estava de volta, era real, irreversível, o relógio tornava a girar, as tardes voltariam a ser mais curtas, a noite mais arrastada, as paisagens repetidas, nenhuma descoberta, a mesma língua, as mesmas pessoas, o mesmo desassossego, os mesmos planos, o mesmo tudo.

11/02/2009

sufoco

Arquivado em: carne e osso, rien — by ignoremode @ 11:18

sempre houve esse problema com os métodos de controle. involuntariamente, o espírito diz não, invoca o anarquista adormecido – anarquista que dorme porque precisa pagar as contas, mas acorda quando se vê ameaçado de castração. se está ficando difícil, deve piorar ao longo dos meses. não há saída para quem não nasceu rico – ou diz amém ou mora na rua. sufoca o grito, abelardo, tenta achar um motivo pra levantar da cama e põe força nessa peruca. engasga com o vômito. não há saídas imediatas. o que lhe resta é aceitar e tentar encontrar alguém para amar.

26/07/2008

o sorriso do trem

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 20:19

sua pele, seu cheiro, seu nariz… só existem no mundo das senhoras oníricas, aquelas roliças e nao totalmente feias, servis e facilmente despercebidas. seus olhos, sua postura, sua voz… não habitam o mesmo mundo que o meu. não falamos a mesma língua – sequer trocaremos línguas um dia. você pertence às gorduchas-dos-sonhos, não a mim. poderia dizer que seria mais feliz se me apoiasse em um dos extremos, mas aqui, no meio-termo, não sei para que lado mirar e disparar os tiros que lhe abateriam. também não consigo te identificar em meio às revoadas. minha pontaria é cega, de qualquer forma.

21/07/2008

24 de julho

Arquivado em: carne e osso, d'artista — by ignoremode @ 12:18

Você insiste tanto para que eu continue com o desenho, que eu bem preferia não tocar nesse assunto, para evitar dizer-lhe que tenho feito muito pouco nesses últimos tempos.

Jamais fui tão feliz, nunca a minha sensibilidade pela natureza, até pela pedrinha mais insignificante, foi tão completa e tão profunda, e todavia… não se sei como dizer tudo isso… minha faculdade de expressão está tão fraca, tudo flutua e vacila de tal modo diante de mim, que não posso fixar nenhum contorno. Mas acredito que, se trabalhasse a argila, ou a cera, talvez conseguisse transmitir o que tenho no espírito. Se isso persistir, vou pegar argila e amassar, nem que seja apenas para fazer bolinhas…

Três vezes comecei o retrato de Lotte, trêz vezes fiquei envergonhado. E isto me deixa ainda mais aborrecido porque há bem pouco tempo eu conseguia reproduzir-lhe os traços com muita fidelidade. Acabei conseguindo fazer um esboço, e é preciso que isto me baste.

goethe

08/07/2008

sereno

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:44

enche o copo até a borda, moço. hoje é dia de negociar com aqueles filhos da puta inclementes. menos gelo, mais birita – não precisa economizar. talvez  seja o dia de você tentar furar algumas regras – que tal, hein? já deixa a garrafa aí porque daqui a pouco, como eu disse, aqueles infelizes vêm me atormentar a paciência, me fazer tropeçar nas palavras e me enfiar em becos sem saída. parece moleza pra você, que está  protegido pelo balcão de cimento maciço, mas olhe para mim: vulnerável, mal vestido e sem grandes posses para enfrentar o mundo olho-a-olho. então, meu caro, peço que não seja você também um cretino: apenas encha o copo até a borda sem falar nada, por favor.

07/07/2008

remendo

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 14:10

ponha as mãos em mim. amasse minhas tripas, destrua minha forma, reconstrua à sua vontade, me refaça à sua maneira, do jeito que você sonha como um homem-deve-ser. quero ser seu idealismo, seu video-game, um soldado sempre pronto para atender às suas expectativas. ponha as mãos em mim. PONHA AS MÃOS EM MIM. veja como sou maleável, consigo desgrudar os braços, girar a cabeça a 180º,  pôr os calcanhares na nuca, entortar os ossos, fazer a barba crescer, diminuir, ser loiro, negro, amarelo, índio, ser eu mesmo, ser você, ser seu projeto. ponha as mãos em mim, por favor.

20/05/2008

dissabores [epílogo]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:55

tamara de lempicka

essa contração no baço me leva ao estranho mundo de ramona. três pontadas de lado, duas pra esquerda, uma pra direita, um suspiro e doiscomprimidos. uh, rá, eis que aparece o diabo da ramona, grande, espaçosa, sapato branco 38/39, não lava a louça nem passa as roupas. i ain’t no ramona, i ain’t no ramona – o carrinho de sorvete anuncia no fim da rua. na cozinha onde ramona cozinha a caçarola encardidinha encaroça o picadinho mal feitinho. na cozinha onde ramona cozinha tem saia rodada, fivela, goma no cabelo e ciclete duro que faz bolinha, explode na cara e mata a pobre moça sufocada.

agora vem ramona embaladinha na caixa roxa de madeira de caixote – sem cozinha, sem picadinho sem seu tamanho descomunal. as contrações passaram.

12/05/2008

dissabores [o decorrer]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:01

vamos esmagar flores pra fazer chá. chá-chá-chá. nos países onde só se chega voando fala-se té. té-té-té-chá-chá-chá. dancemos? dancemos. mas peraí, peraí, tive uma idéia: dancemos sobre as flores, assim matamos dois coelhos com uma única cajadada. matamos dois coelhos pra colher duas xícaras de chá-chá-chá-té-té-té. vai, se aproxima e pisa sem dó nas pétalas e nos botões. recomenda-se fortemente evitar os espinhos e as roseiras, porque ambos são amargos e truculentos e dóem quando pegam a gente de jeito. agora vem, isso, sem pensar demais. cruzemos os braços e agarremos a cintura um do outro. porque dançar só é gostoso quando seu peito roça minha camisa e rodopiamos aleatórios ao som de nada – já reparou no tempo que a gente perde de tocaia à espera de algum tolo capaz abrir a tampa dos nossos galpões?

quer chá de que, meu amor? tem de hortênsias e tulipas e cravos e olivas e calêndulas e vetiver e rosmarim e acácia e peroba e jatobá e mogno.

morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.

já, já, já, já morena velha eu
quero chá.

dissabores [prólogo]

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 11:55


[camilla engman]

bichinha magrinha, sozinha, luzes no cabelo, nike shocks, vaga pelas ruas em busca de amor. desce a augusta, atravessa a d.antônia de queirós, cruza a rego freitas, olha, não acha, vaga pelo arouche, espia sobre as mesas na calçada. bichinha-magrinha quer alguém que se encaixe nos seus sonhos de menina – um homem forte, de mãos grandes, voz grossa, topete curvado, peito marcado. quer que o macho se enrosque no seu corpo e ofereça toda sua doçura e suor ao seu par mirrado de traços cafusos. bichinha-sozinha quer ouvir apolo dizer baixinho em seu ouvido o quanto precisa dela, que sem ela não viveria, que a vida só faz sentido porque ela, a bichinha, existe e o completa. bichinha-magrinha quer um pai-amante, super homem amplificado. sozinha-novinha pelas ruas da metrópole em busca de amor, passa na sé, desce ao terminal d.pedro, pega um ônibus para o ibirapuera às três e meia da manhã. “faço dezenove esse mês”. é a idade de casar e servir o seu homem. bichinha-magrinha-sozinha acha que hoje encontra sua metade. mas a noite desfalece e ela espera o trem, que não virá , comendo cachorro-quente com purê de batatas.

11/05/2008

garganta

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 22:48

sua garganta é minha, na verdade. e está ferida, ardida, pisoteada. andar de botas na garganta alheia? que hábito feio! nada que já não fosse esperado. sei que você anda de botas por gargantas, tímpanos, trompas, baços e cabaços sem respeitar os carpetes nas entradas que dizem “limpe os pés” em letras vermelhas felpudas.  portanto, o que é a minha (sua) garganta pra você? (…) mas deixando de lado o assunto “sua (minha) garganta”, vi o preço da passagem: as duas dão quase cinco mil reais, bicho. é muito dinheiro! e detalhe: as duas são pra mim. você fica aqui mesmo, paralisado, com a sua (sua) garganta.

23/04/2008

au revoir, edgar.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:44

estou planejando minhas férias, edgar. férias curtas, mas férias de verdade, remuneradas – porque, você sabe, edgar, eu passei um bom tempo de férias-forçadas, imerso em água sanitária, tentando me livrar das nódoas do passado. foi dureza, edgar, mas agora a coisa mudou. e nessa mudança calhou que eu devo tirar férias daqui a uns meses, edgar. férias, edgar, férias! já pensou? férias! faz tanto tempo que eu não sei o que é isso. imagina acordar e sair por aí, debaixo de sol, chuva ou granizo, vestindo uma cueca sua por baixo do sobretudo, edgar, pra não me esquecer jamais de você enquanto eu estiver no continente distante.

08/04/2008

gourmet

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:12

você faz parecer fácil essa arte de pular de galho em galho. pois não é algo que eu poderia fazer, monsieur, porque, ao contrário de você, sou apenas um macaco gordo e macilento, sem viço, cinza e inerte, com o corpo estendido em praias mortas. mas isso não impede que sejamos amigos, monsieur. aproxime-se e veja por esses binóculos onde as pernas da madame estão acostadas, lá no pico da montanha, descendo curvilíneas até o meio do vale. não te dá vontade de escalar essas pernas, monsieur? mordê-las, monsieur? embalá-las em papel-alumínio e aquecê-las durante 45 minutos em forno preaquecido a 180º , monsieur? regadas com um bom azeite, monsieur, servem com fartura até 30 homens famintos – os seus homens, monsieur.

07/04/2008

a A

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 23:43

a. se retorce com as dores e a ferrugem avança pelos seus ossos. não sei o que fazer além de me agachar, tapar as orelhas e me refugiar nesse silêncio opaco e formigante, afrouxar as pernas e cair nesse barulho estranho que vem de dentro da cabeça. já chega. é hora de tomar dois, três, quatro, cinco goles dessa coisa forte, ardida e esperar que a tremedeira passe. ao que vejo, rezar não adianta. esperar também não. chegamos ao ponto, a., em que não conseguimos mover em nenhuma direção: nem pra cima, nem pra baixo, nem pro lado, nem pro outro, nem içar as velas, nem cuspir na ciência, nem na literatura rasteira. estamos engaiolados na nossa própria pequenez, a. desculpa não poder trocar de lugar contigo. eu o faria, se pudesse.

balada

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:46

hoje é seis ou sete? não importa. seis ou sete de abril é o dia da mentira, e eu vou te pregar uma peça. primeiro a gente dança, faz confissões extraordinárias na varanda e em seguida, sob o bafo úmido da cidade, observa as nossas anáguas empinarem com vento. veja como essas brincadeiras, tão simples, revelam as diferenças entre mim-e-ti: eu levanto a saia porque gosto de sentir o refresco nas minhas virilhas suadas. você faz porque se delicia com os uivos dos babuínos lá embaixo, aplaudindo e gotejando com a visão do seu sexo. eu danço porque gosto de sentir seu hálito no meu pescoço. você dança porque gosta de exercitar as pernas. eu te revelo todos os segredos porque confio em você. você me revela os seus porque isso te diverte – ademais, nem sei o que você me conta é realmente verdade. suspeito que não.

30/03/2008

rachael

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 21:27

veja só isso, é de morrer. nunca ri tanto em minha vida – e olha que nasci nao faz nem duas horas. quando chegará? estou cansado do vento na cara, de olhar por essa janela, de atravessar a cidade com a vista que tenho daqui. por onde posso começar a me confundir? tem uma pista de onde eu acho auto-sabotagem pra comprar a quilo? nada me interessa, exceto as pílulas que você carrega no bolso.

wonder where you’re going, what you’re doing, what kind of air you’ve been breathing.  bottled air?

queria (muito) saber o nome daquela música, aquela que faz “tchu… tchuru… rururur…”.

28/03/2008

malas prontas

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:08

estão ali, cinzentas, encostadas, esperando chegar a hora. mas relógio não anda, você não vem, os olhos recorrem à janela, à pia, a uma última checada no quarto. há um certo cheiro familiar, mas vem da cozinha ao lado – já reparou que nada familiar vem da gente? não construímos nada. a ausência já foi contabilizada duzentas e setenta e quatro vezes, mas agora a ausência se ausentou de vez. só deixou um pouquinho de poeira, mas a guzimeire pode dar um jeito nisso amanhã de manhã. amanhã de manhã já não haverá ausência, nem malas à epera de um bote que as transporte para o outro lado da ilha. veja, meu irmão, não importa que seja o ano 1 – as coisas continuam do jeito que sempre foram, só alguns signos mudaram. nunca haverá o ano da sua vida. tanto que te pedi pra não se apegar a essas esperanças atrais, né? bom, agora já não tem jeito. você vai para um lado, e vou te seguir na reta paralela.

26/03/2008

a retirada

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 17:05

se você acordou com uma cauda pendurada, não é um problema meu. vai ter que conviver com isso até não-sei-quando – talvez até chegar a sua hora de abotoar o paletó, talvez até encontrar um cirurgião que dê jeito, talvez caia sozinha com o tempo ou talvez, mas muito talvez, seja só uma paranóia sua que tomou corpo e que, quiçá, se desmanchará daqui a duas ou três horas. mas por favor não ponha a culpa em mim. e outra coisa: pra ser bem sincero, achei que já tivéssemos dado esse salto na escala evolutiva da espécie, mas, hum… ainda gosto dos seus olhos escuros, escuros-azuis, poços sem fundo que cheiram a limo e emitem esse insistente coachar de rãs. barba mal feita, cabelo escasso, um recheio extra de gordura na barriga, nos peitos, nas costas, nas mãos, nos pés, no cérebro. ah, bicho, se você soubesse que essa cauda é o menor dos problemas… pior é essa marca de zorro que você imprimiu aqui dentro e que não sai nem se eu puser de molho no vanish.

tang cupuaçu

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:51

vê lá, menino, na lata vermelha. não nessa. essa é a azul, idiota! esse seu cabelo é péssimo, sou obrigada a dizer. já passei muita vergonha na rua por causa desse ninho de mafagafinhos. então vai lá, na lata VERMELHA, e pega a pomada pra abaixar essa arapuca. onde já se viu, um marmanjo nessa idade ainda andar por aí com esse cabelo. É a vermelha, imbecil. Não sabe o que é vermelho? Ou nasceu daltônico? Esquece, eu apanho pra você.

21/01/2008

meu prazer.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 13:02

17/12/2007

festa da firma

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:28

dorizete trabalhava no rh de uma empresa grande e lenta, como assistente-da-assistente-da-assistente. no dia 15, recebeu em seu e-mail, talvez por engano,um convite para a  festa de confraternização do seu núcleo – a “realizar-se-á às dezenove horas do dia dezessete de dezembro de dois mil e sete no restaurante…”. seria possível? havia algo de errado? Porque, caramba,  estava ali há três anos e nunca havia sido convidada sequer para um cafezinho na máquina automática do corredor.

11/10/2007

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:56

aspirar uma certa estabilidade é como querer navegar em lagoas. é bom, é bonito, é simpático, mas onde estão as ondas pra virar o barco quando é preciso? e o infinito do mar, cadê? enfim, não alcancei estabilidade de nada, se é o que vocês estão pensando, mas o meu coração quer um pouco de paz sim senhor. sem tsunamis pra revirar minhas gavetas (exceto paixões avassaladoras, é claro), sem tubarões açoitando a minha popa.  só um pouco de vida mansa – por enquanto – até que a natureza atenda o seu chamado e me jogue na berlinda da vida novamente.

19/09/2007

saltar

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:18

vou saltar de um avião. hoje ou, no mais tardar, amanhã de manhã. vou despido, sem pára-quedas, sem cartas, sem balões de ar pra amortecer a queda. vou saltar porque quero saber como é a liberdade absoluta.

18/09/2007

mater

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:11

parece que tem uma comunicação telepática entre mim e ela, não sei bem explicar. só sei que quando as nuvens cobre o sol, recebo uma ligação. estou com saudade, meu filho, você tá bem? aí sou compelido a dizer que sim, porque senao serão duas preocupações. mas a vontade é de me desfazer ali mesmo, sem restrições, virar lama e me moldar novamente ao simples som da sua voz.

31/08/2007

a casa

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:55

o casaco desbotou com uma facilidade incrível, logo na primeira lavada ficou com umas manchas amareladas na manga. preferi não comentar o episódio com ninguém. custou tão caro, e agora isso. ligo pra loja e reclamo? ou descarto, passo pro outro cômodo e tento não pensar no prejuízo? enfim, o pensamento passou. o sofá fez um ruído de abraço, a tv se iluminou, o controle remoto alternou mundos e, em meio a um chiado e outro, um cheiro sem sentido açoitou a sala: M. havia posto morangos no forno, pra ver o que acontecia. impaciente, ia e vinha pra olhar o que se passava lá dentro, além da portinhola de vidro fosco. olhava, coçava a cabeça, saía, voltava, lavava as mãos, arranjava alguma tarefa doméstica pra fazer e deixava tudo pela metade. luz minguada em cima, piso sujo embaixo e nenhuma surpresa do outro lado: os morangos murcharam, exalaram um cheiro hediondo e perderam o sabor. “parecem podres, né?”. mas o que voce esperava, M., uma grande descoberta? uma sobremesa diferente, pelo menos – respondeu. acho que já tentaram fazer morangos-secos em algum lugar do planeta, M., mas talvez essa maçacora vermelha sirva pra cobrir os desbotados do casaco.

27/08/2007

furtivo

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 11:29

vontade de, sei lá, mergulhar em espuma branca espessa, ver nada, sentir as coisas com o tato. às vezes penso se preciso fechar as janelas, deixar que a escuridão tome conta da casa e dos escombros. é uma forma possível  de despertar os sentidos, dilatar a pupila e enxergar menos formas e mais texturas. mas todas as portas trazem essa intorragação pendurada na maçaneta, não tenho muita idéia de onde ir ou o que fazer. os olhos que estão ali, a três ou quatro ombros, dão um jeito de chegar aos meus, mas sem mensagem alguma. o que faço agora, meu deus? vou lá e tiro o véu ou apenas respondo com outro olhar vazio? a desmensagem é o caminho mais fácil, e ficar no sofá, observando o tempo passar parece mais divertido do que falar quem sou eu, o que faço, de onde venho e pra onde vou: até porque, secretamente, sei que não irei a lugar nenhum.

13/08/2007

tempo e tapete

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:07

hoje resolvi que quero entrar pro convento, ser freira, não deixar que ninguém jamais toque meus genitais. sinto-me enojada quando imagino uma mão masculina subindo pelas minhas coxas, tamborilando pelas cavernas secretas, recém cobertas de musgo fino e delgado,  apertando minha cintura e se fixando nos seios. penso com tanta intensidade – e horror -  que sou capaz de sentir o os mamilos comprimidos entre  dedos rústicos que não são  meus.  a outra mão, tão grande, segura minha nuca com força, puxa meus cabelos para trás e me apóia num ombro duro, de onde eu sei que jamais despencaria.  jogada bruscamente num canto da sala, o leão se arrasta em minha direção – eu como a presa que, tomada pelo pânico, fica incapaz de ensaiar qualquer movimento de auto-proteção. os olhos felinos  amarelos fitam meu alvo. a língua salta da boca, dá a volta nos lábios, encaixa-se entre minhas pernas. nesse momento a sala se enche de estalos de boca reforçados por barulho de saliva que ia e vinha. olho para o teto, perço pra qualquer deus, de qualquer credo,  que envie um raio de voltagem pesada para que me evapore do planeta sem deixar traços dos meus sucos que escorrem e me fixam no tempo e no tapete. se ao menos pudesse chegar lá agora, no convento, numa escarpa coberta de heras, com celas minúsculas de onde se enxerga as palmeiras envergadas que quase tocam o mar.

30/07/2007

pesticidas

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:38

pôs conhaque no copo e bateu na mesa: agora falemos dos intelectuais, esses bestas que não tocam a mim nem a ti. consegues, por acaso, enxergar o deleuze, barthes ou guattari tendo uma relação sexual? (…) não, primeiro porque jamais imaginaria qualquer ser humano,  catedrático ou estivador, mantendo uma “relação sexual”. as pessoas trepam, S., ou, sei lá, dão umazinha, funfam, dão uma bimbada, não sei. falar “relação sexual” é tão pernicioso quanto “fazer amor”. porque amor não se faz, já nasce pronto, está nas prateleiras do carrefour em promoção – pague 400, leve 500ml – dá até pra recorrer ao procon, caso o sentimento não o satisfaça por completo. mas me ocorreu agora que, talvez, relação sexual combine com a segunda pessoa, esse tempo verbal odioso que você costuma a usar. você concorda? tu concordas? amor é produto. relação sexual é segunda pessoa. relação sexual és tu.

rolda molda

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:26

puxava suas barbas, balançava nela, enroscava os dedos e me perdia dentro da mata branca e grisalha que escorria pelos ombros, peito, barriga, coxas, pés e seguia pra muito além do subsolo. descia pelas curvas de gordura, escorregava pelas escamas da pele. H. gostava da denominação “subsolo”, parecia algo além do planeta, ou mais perto da china. e eu continuava achando que china era marte, saturno, vênus, menos terra. água quente caía barulhenta na bacia, hora de enfiar os pés. a pele enrugada, congelada, atravessava a moita de vapor e se acomodava no ventre transparente. ouvia-se um suspiro que inundava a sala inteira. espirro vai, vem e retorce o pescoço, incha as veias, paralisa um lado só. acabou meu frenesi, falei-lhe, só restou uma imagem velha e apagada de você – sonho com sua língua no meu pescoço às vezes. por acaso aconteceu hoje, o único momento aconchegante em meio a tanto frio. queria demais, mas, como eu já disse, apagou. você é nada mais que papel amarelado agora.

26/06/2007

a castanha.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:53

dona risadinha, cheia de marra, chega meio mulata-de-televisão fazendo beicinho e levantando os cabelos cacheados com os braços, exibindo as axilas lisas meio escuras, o bronzeado dos braços-de-dentro, abaixando devagarinho, mostrando a ponta da língua, andando esquisito, enfim, essas coisas que o calor faz com a gente. penélope em fúria, gira, olha meio assim, do jeitinho que viu na novela, e deixa o cabelo cair nos ombros, nas costas, por sobre o rosto.

as mãos vao escorrendo sincronizadas pelo corpo, sobem a ladeira dos seios, desnudam um deles, descem e páram na cintura. espaço aberto para o bico negro e rígido emergir do meio da renda, moleque pretinho atrevido que quer meter o nariz aonde não é chamado. ela olha devagar, faz uma coisa com a boca – como se dissesse “ops.. escapou” – traz o rosto de volta, aperta os olhos e continua a lascívia da vulva quente, invocando a lava que precisa escorrer por entre as pernas, se contorcer com a dor das punhaladas. aproxima-se, mexe na cabeça do corpo macilento e atônito, esfrega o ventre nu nas faces vermelhas do moço, que, de olhos fechados, inala o cheiro de perfume e suor, passeia com a língua pelo umbigo, sente a textura da pele afastar-se e reabre as vistas para observar o cabelo ondulado subir novamente, o rosto se estreitar com as expressões ensaiadas, os dois peitículos balançar solenes ao som de nada.

cai o balaio, a castanha negra e oleosa está ali, a menos de um braço de distância. deseja-a a ponto de sentir uma vertigem nos testículos, algo frio que sobe pela bexiga, ataca o estômago e vem se agrupar na garganta. quer, e está nervoso. precisa daquilo para abandonar sua condição de homem, refazer-se menino minúsculo, entrar por aquele túnel e ficar ali, agachado no silêncio, corroendo a pobre mulher por dentro: parasita, sim um parasita. era aquilo e pronto!

ansiava como nunca pela fruta negra embutida, repleta de espinhos, precisava fartar-se dela, dormir no seu entorno, manter a vigília eterna que protege suas entradas e suas cavernas. os passos estavam quase-lá, notava o perfume abraçá-lo, enfiava os dedos no lençol, apertava-o, punha a língua para fora e esperava, passivo e predador, o ventre roçar ali outra vez- mas agora não o deixaria se distanciar, é pra valer, tremia pelo pedaço daa carne escura-de-bronze, canibalizaria os corpos para que ninguém se perdesse ao voltar para casa. mãos pequenas agarravam-lhe a cabeça, sufocavam-no contra a pele fria e elástica. estava ali a deixa pela qual tanto esperara: tirou da boca o braço áspero, envolveu as ancas, cravou os dedos na polpa mole das nádegas e mergulhou pelas brechas úmidas, cheias de sabor e sedimentos. abriu os olhos e percebeu que metade de si já havia ingressado naquele mundo imaginário, buscou a superfície para respirar por um segundo e percebeu, pela primeira vez na vida, que estava com um pedaço de carne viva e pulsante entre os dentes.

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