sempre houve esse problema com os métodos de controle. involuntariamente, o espírito diz não, invoca o anarquista adormecido – anarquista que dorme porque precisa pagar as contas, mas acorda quando se vê ameaçado de castração. se está ficando difícil, deve piorar ao longo dos meses. não há saída para quem não nasceu rico – ou diz amém ou mora na rua. sufoca o grito, abelardo, tenta achar um motivo pra levantar da cama e põe força nessa peruca. engasga com o vômito. não há saídas imediatas. o que lhe resta é aceitar e tentar encontrar alguém para amar.
11/02/2009
08/07/2008
coleção outoninverno
Escrevi isso em 2003:
quero que amanhã o dia acorde em agosto. e que fique escuro mais cedo. e que precise de edredons pra dormir. quero dar pulos no banheiro enquanto espero o chuveiro esquentar. quero pensar duas vezes antes de sentar na privada fria. quero sofrer pra lavar a louça. quero tomar sopa de ervilha ou de cebola. chocolate quente. desvairadamente. quero usar casacos e muitas camisas – uma sobre a outra, do jeito que eu gosto. quero vidros embaçados. quero cortinas fechadas e me deliciar nos tons sóbrios que os dias frios trazem.
cinco anos depois, posso dizer que tudo o que eu quero é exatamente o oposto.
13/09/2007
drops de melancia
sei lá, cara, esse cheiro de melancia me faz querer colocar todo esse amor mal cozido, mal preparado e mal saboreado pra fora. não sei explicar o porquê, mas arriscaria um palpite meio cego. é mais ou menos o seguinte: não tem muito a ver com colegiais, só porque elas carregam esse perfume de balas e bombons. é que esse cheiro artificial de drops de melancia mexe comigo de alguma forma. talvez me leve de volta a mil novecentos e nao-sei-quando, bem na época em que eu estava depertando pro amor, e esse cheiro me lembra a T., que estudava na 6B, bem em frente à minha sala. T. era baixinha, um cabelo tão cheiroso e um um nariz magnífico – sem falar em sua boca, que ainda hoje, sem qualquer esforço, consigo lembrar o recorte. mas continuo reforçando: nada a ver com colegiais. ou pelo menos não no sentido “eu, velho, aqui no presente e elas, saltitantes, lá no passado”. não, não… juro, porra! jamais namoraria uma colegial. olha pra mim, com essa barriga e tal. mas sei lá, bicho, parece que eu sou levado de volta a um tempo em que a gente sonhava com mais facilidade, sem tantos filtros adultos pra enquadrar a imaginação, imaginar cenas que hoje seriam tão cafonas – te falei dos filtros, né? em suma: o cheiro de melancia traz T. de volta às minhas memórias, e eu a desejo da mesma forma que desejei em mil novecentos e nao-sei-quando, e tenho vontade de sonhar da mesma forma que sonhava em mil novecentos e nao-sei-quando. mas aí vêm os filtros. eu te falei dos filtros, né?
06/09/2007
iCar
a especulação de que a Apple e a Volkswagen estão planejando um iCar me deixou de cabelo em pé: porque provavelmente eu vou querer, mas não vou poder.
tim festival
nem pensar.
só sairia de casa pra ver:
a) pj harvey
b) regina spektor
c) portishead
d) fiona apple (se ela prometesse não cantar nenhuma música do último álbum)
e) erykah badu (tenho curiosidade)
f) jeanne moreau
31/07/2007
fantomas
D., vestido de qualquer coisa, entra e sai o tempo todo. diz bom-dia, senta, folheia o jornal, traz debaixo do braço umas novidades frias, livros velhos, folhetos de eventos passados – coisas de 2004, mais ou menos – e nunca acrescentou grandes cores ao nosso ofício diário. é um fantasma dos corredores corporativos. sempre está ali ou acolá tentando engendrar algum laço social com os passantes. esses dias d. me perguntou se eu me interessava pelo aquecimento global. falei que sim, meio indiferente, e recebi uma revista grande, feia, de papel muito branco e duro, que versava sobre arquitetura e as novas configurações do planeta. li duas linhas, abandonei a revista e ele se ressentiu, pelo que me dei conta mais tarde. não discuti o tema, e ele parou de me perguntar se eu gostava disso e daquilo. de repente me tornei desinteressante pro d., um quadro barato pendurado na parede cor-de-nada. para o próprio fantasma, eu me tornei um fantasma – e vi de perto como somos incapazes de enxergar além da retina alheia.
11/05/2007
ricochetear
atendi a uma ligação estranha hoje de manhã e resolvi pôr logo um ponto final ao assunto – quando a gente começa a aprender a dizer não, o negócio vai longe. fui convidado para uma festinha logo mais e, milagre da natureza, aceitei. tá na hora de aproveitar essa conjunção astral que favorece meu relacionamento com as pessoas. isso só acontece uma vez a cada dez anos e o momento pede um basta na devassa que andei fazendo no meu círculo social. o f. falou que eu tenho muito poder sexual e, se quiser, posso levar muita gente pra perdição. ha-ha-ha. eu só quero, quando quero, pessoas impossíveis. se liga, bicho.
ah, para reforçar: falei que os trâmites astrais estão favorecendo relacionamentos, não que eu tenha passado a acreditar nos outros.
08/05/2007
primeiro veio aquela dor no ventre, pensei que fosse morrer ali mesmo, na calçada da rebouças com a brasil. uma dor tão aguda, tão penetrante, parecia que mil e trezentas agulhas se ocupavam em retalhar meu abdome. tomar um táxi e chegar em casa, a cinco minutos dali, foi como fazer a grande travessia de mãos dadas com moisés, perdido em meio a um deserto sem fim, sob sol quente, entre a dor e a busca por respostas – de onde, afinal, vinha aquele turbilhão? a ausência de uma resposta provocava pensamentos repetitivos. era preciso ter fé, muita fé em alguma coisa. a dor escorria, implacável, inundando meu recheio, gerando ondas de calor e serpeteando cordas grossas que estalavam na minha cara. a barriga tremia, fazia barulhos estranhos. vi os prédios familiares da minha rua, e a dor apertou. “é logo ali depois do sinal, moço. pode parar naquele prédio de portão verde. isso, esse mesmo. quanto foi?”. consultou uma tabelinha, 9 reais, fique com o troco. quatroze andares pra cima num elevador lento e suado que sempre está parado no oito. desce tudo, sobe tudo mais seis. entrei no banheiro, tentei dar vazão à minha suspeita, mas não era nada intestinal. deitei na cama, tentei relaxar, meditar, o que se passa comigo meu deus?, e pus as mãos sobre a barriga. tremeu, mexeu, revirou. fui no hospital, tomei soro, dormi, voltei, sobe mais 14, cama e sono. acordei no dia seguinte pior do que já estava. desci na farmacia, comprei o remedio prescrito pra casos de emergência e engoli logo uns três comprimidos com um chá forte e escuro. dei dois passos e caí morto na cama.
dois dias depois, quando acordei, a barriga continuava mexendo, mas não havia mais dor. intrigado, passei a mão com mais cuidado, mapeei com a ponta dos dedos e senti, redondo e agitado, um pequeno demônio protestar contra a minha invasão.
03/05/2007
penso no dinheiro, ela sequer se preocupa em ligar. meu lugar agora é aqui, por enquanto, até a segunda chamada. queria poder me esticar mais, mas o espaço ainda é limitado. tento, tento e tento derrubar as paredes de concreto mas, ao final das contas, a rigidez do cinza me vence – a massa branca dos meus braços não são páreo para quase nada.