26/03/2008

tang cupuaçu

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:51

vê lá, menino, na lata vermelha. não nessa. essa é a azul, idiota! esse seu cabelo é péssimo, sou obrigada a dizer. já passei muita vergonha na rua por causa desse ninho de mafagafinhos. então vai lá, na lata VERMELHA, e pega a pomada pra abaixar essa arapuca. onde já se viu, um marmanjo nessa idade ainda andar por aí com esse cabelo. É a vermelha, imbecil. Não sabe o que é vermelho? Ou nasceu daltônico? Esquece, eu apanho pra você.

21/01/2008

meu prazer.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 13:02

17/01/2008

fuca

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 16:52

17/12/2007

festa da firma

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 16:28

dorizete trabalhava no rh de uma empresa grande e lenta, como assistente-da-assistente-da-assistente. no dia 15, recebeu em seu e-mail, talvez por engano,um convite para a  festa de confraternização do seu núcleo – a “realizar-se-á às dezenove horas do dia dezessete de dezembro de dois mil e sete no restaurante…”. seria possível? havia algo de errado? Porque, caramba,  estava ali há três anos e nunca havia sido convidada sequer para um cafezinho na máquina automática do corredor.

25/10/2007

cá-dique

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 15:03

havia uns viadutos que passavam rentes às janelas alheias, pelos quais cruzei, mas a cidade estava, de modo geral, sob alguma neblina densa. era como se houvesse um teto, um limite. e o céu? sei lá. não devia haver mais céu e o vaivém de veículos parecia tranquilo quanto a isso: acende os faróis, faz-se dia. havia uns caminhos confusos para se chegar na casa de N. Mas como eu já havia morado por aqueles lado, confiei no meu senso de direção e acabei acertando. era o mesmo prédio, só que em cercanias diferentes. tudo na cidade era meio torto – vertigens de impressionsimo alemão, golden-ratio, proporção áurea – alguém há de sentar lá e me dizer o que havia se passado naquela cidade. Entrei no prédio, um ambiente meio úmido e escuro, larguei as malas e convidei N. para um passeio. A porta dava para estação de metrô, onde os emaranhados de pessoas transitavam. foi bom ver gente. Até então, não havia visto viv’alma, só carros. a cidade original estava, na verdade, ali dentro. o mundo havia se convertido numa imensa estação de metrô. “parece blade runner”, falei. N. concordou. as cidades haviam tomado o corpo das fantasias de philip k. dick.

15/10/2007

a mudança

Arquivado em: guzimeire — by ignoremode @ 17:25

essas noites eu cheguei e escancarei de uma vez: só sendo que eu vou continuar nessa pocilga, meu filho, não sou mulher de ficar em site barato não. meu destino é ser famosa, viu, quero é ter umas duzentas televisão de plasta, prasma, plástica… pedi as conta pro seu julio e me mudei pra casa de dona paradoxa.

por isso, meu filho, você não vai me ver mais aqui não. só na revista paradoxo - que paga mais.

11/10/2007

horóscopo do dia

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 16:38

“Nesta próxima fase que vai de 11/10 (hoje) às 0h58 a 13/10 às 15h35, você estará vivendo um momento excepcionalmente favorável para fazer contatos com pessoas que estão distantes, ou mesmo viajar.”

quem sou eu para contrariar os astros, né?

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:56

aspirar uma certa estabilidade é como querer navegar em lagoas. é bom, é bonito, é simpático, mas onde estão as ondas pra virar o barco quando é preciso? e o infinito do mar, cadê? enfim, não alcancei estabilidade de nada, se é o que vocês estão pensando, mas o meu coração quer um pouco de paz sim senhor. sem tsunamis pra revirar minhas gavetas (exceto paixões avassaladoras, é claro), sem tubarões açoitando a minha popa.  só um pouco de vida mansa – por enquanto – até que a natureza atenda o seu chamado e me jogue na berlinda da vida novamente.

19/09/2007

saltar

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:18

vou saltar de um avião. hoje ou, no mais tardar, amanhã de manhã. vou despido, sem pára-quedas, sem cartas, sem balões de ar pra amortecer a queda. vou saltar porque quero saber como é a liberdade absoluta.

chuleta

Arquivado em: veneno — by ignoremode @ 15:14

tão magra, meu deus! ia e vinha, cambaleava pela sala, sem saber se caía na poltrona ou se voltava pra cozinha. na real, ela sempre dava impressão de que havia cheirado todas – pupilas dilatadas, assertiva, sempre segura das próprias idéias. mas era apenas um corpo frágil e uma voz meio rouca, daquelas que podiam assustar se resolvesse aumentar o tom. enfim resolveu esticar-se na cadeira, arreganhou as pernas e acendeu um cigarro. tinha esse jeito estranho de fumar, sempre olhando para a ponta acesa e esticando a cabeça para cima antes de soltar a fumaça. não era exatamente um charme,  mas há que se dizer que aquela moça tinha uma certa personalidade em tudo que fazia.

18/09/2007

mater

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 18:11

parece que tem uma comunicação telepática entre mim e ela, não sei bem explicar. só sei que quando as nuvens cobre o sol, recebo uma ligação. estou com saudade, meu filho, você tá bem? aí sou compelido a dizer que sim, porque senao serão duas preocupações. mas a vontade é de me desfazer ali mesmo, sem restrições, virar lama e me moldar novamente ao simples som da sua voz.

17/09/2007

a panela

Arquivado em: o cozinheiro — by ignoremode @ 12:25

foi por causa de um riesling suíço – um presente, na verdade – que voltou essa vontade louca de voltar a cozinhar. fazia tempo que não remexia a cozinha, sujava louça ou arriscava uma refeição decente feita de sobras indecentes na geladeira. mas aconteceu, e foi por causa desse vinho que sentiu que já era hora de abraçar seus velhos hábitos, dialogar com a casa novamente. uma bancada nova para a tv, talvez: jogar fora isso e aquilo, passar um rodo, abrir a janela e deixar o sol entrar. porque só hoje, talvez amanhã, a casa se abra para seu filho novamente.

13/09/2007

drops de melancia

Arquivado em: rien — by ignoremode @ 17:56

sei lá, cara, esse cheiro de melancia me faz querer colocar todo esse amor mal cozido, mal preparado e mal saboreado pra fora. não sei explicar o porquê, mas arriscaria um palpite meio cego. é mais ou menos o seguinte: não tem muito a ver com colegiais, só porque elas carregam esse perfume de balas e bombons. é que esse cheiro artificial de drops de melancia mexe comigo de alguma forma. talvez me leve de volta a mil novecentos e nao-sei-quando, bem na época em que eu estava depertando pro amor, e esse cheiro me lembra a T., que estudava na 6B, bem em frente à minha sala. T. era baixinha, um cabelo tão cheiroso e um um nariz magnífico – sem falar em sua boca, que ainda hoje, sem qualquer esforço, consigo lembrar o recorte. mas continuo reforçando: nada a ver com colegiais. ou pelo menos não no sentido “eu, velho, aqui no presente e elas, saltitantes, lá no passado”. não, não… juro, porra! jamais namoraria uma colegial. olha pra mim, com essa barriga e tal. mas sei lá, bicho, parece que eu sou levado de volta a um tempo em que a gente sonhava com mais facilidade, sem tantos filtros adultos pra enquadrar a imaginação, imaginar cenas que hoje seriam tão cafonas – te falei dos filtros, né? em suma: o cheiro de melancia traz T. de volta às minhas memórias, e eu a desejo da mesma forma que desejei em mil novecentos e nao-sei-quando, e tenho vontade de sonhar da mesma forma que sonhava em mil novecentos e nao-sei-quando. mas aí vêm os filtros. eu te falei dos filtros, né?

06/09/2007

iCar

Arquivado em: rien — by ignoremode @ 11:46

a especulação de que a Apple e a Volkswagen estão planejando um iCar me deixou de cabelo em pé: porque provavelmente eu vou querer, mas não vou poder.

tim festival

Arquivado em: rien — by ignoremode @ 11:44

nem pensar.

só sairia de casa pra ver:
a) pj harvey
b) regina spektor
c) portishead
d) fiona apple (se ela prometesse não cantar nenhuma música do último álbum)
e) erykah badu (tenho curiosidade)
f) jeanne moreau

31/08/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 17:52

a casa

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:55

o casaco desbotou com uma facilidade incrível, logo na primeira lavada ficou com umas manchas amareladas na manga. preferi não comentar o episódio com ninguém. custou tão caro, e agora isso. ligo pra loja e reclamo? ou descarto, passo pro outro cômodo e tento não pensar no prejuízo? enfim, o pensamento passou. o sofá fez um ruído de abraço, a tv se iluminou, o controle remoto alternou mundos e, em meio a um chiado e outro, um cheiro sem sentido açoitou a sala: M. havia posto morangos no forno, pra ver o que acontecia. impaciente, ia e vinha pra olhar o que se passava lá dentro, além da portinhola de vidro fosco. olhava, coçava a cabeça, saía, voltava, lavava as mãos, arranjava alguma tarefa doméstica pra fazer e deixava tudo pela metade. luz minguada em cima, piso sujo embaixo e nenhuma surpresa do outro lado: os morangos murcharam, exalaram um cheiro hediondo e perderam o sabor. “parecem podres, né?”. mas o que voce esperava, M., uma grande descoberta? uma sobremesa diferente, pelo menos – respondeu. acho que já tentaram fazer morangos-secos em algum lugar do planeta, M., mas talvez essa maçacora vermelha sirva pra cobrir os desbotados do casaco.

27/08/2007

furtivo

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 11:29

vontade de, sei lá, mergulhar em espuma branca espessa, ver nada, sentir as coisas com o tato. às vezes penso se preciso fechar as janelas, deixar que a escuridão tome conta da casa e dos escombros. é uma forma possível  de despertar os sentidos, dilatar a pupila e enxergar menos formas e mais texturas. mas todas as portas trazem essa intorragação pendurada na maçaneta, não tenho muita idéia de onde ir ou o que fazer. os olhos que estão ali, a três ou quatro ombros, dão um jeito de chegar aos meus, mas sem mensagem alguma. o que faço agora, meu deus? vou lá e tiro o véu ou apenas respondo com outro olhar vazio? a desmensagem é o caminho mais fácil, e ficar no sofá, observando o tempo passar parece mais divertido do que falar quem sou eu, o que faço, de onde venho e pra onde vou: até porque, secretamente, sei que não irei a lugar nenhum.

24/08/2007

friday escapes

Arquivado em: d'artista — by ignoremode @ 13:13

16/08/2007

é cego, é cego.

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 11:16

essa dor que se instalou na cabeça tem um significado: ódio à burrocracia. “burrocracia”: ato falho que revela as verdades que todo mundo já sabe. e agora, josé, qual a saída? relaxar e gozar ou tomar um sol no banco da praça. há moscas, há passantes, o cheiro enjoado de doce que vem nao sei de onde, talvez dum sobrado perdido em meio às paredes industriais. preciso de ajuda pra me desmanchar, não quero ser mais eu.

15/08/2007

deseo

Arquivado em: quase-útil — by ignoremode @ 12:01

14/08/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 11:19

julio na tpm

revista tpm (ago/07)

13/08/2007

tempo e tapete

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:07

hoje resolvi que quero entrar pro convento, ser freira, não deixar que ninguém jamais toque meus genitais. sinto-me enojada quando imagino uma mão masculina subindo pelas minhas coxas, tamborilando pelas cavernas secretas, recém cobertas de musgo fino e delgado,  apertando minha cintura e se fixando nos seios. penso com tanta intensidade – e horror -  que sou capaz de sentir o os mamilos comprimidos entre  dedos rústicos que não são  meus.  a outra mão, tão grande, segura minha nuca com força, puxa meus cabelos para trás e me apóia num ombro duro, de onde eu sei que jamais despencaria.  jogada bruscamente num canto da sala, o leão se arrasta em minha direção – eu como a presa que, tomada pelo pânico, fica incapaz de ensaiar qualquer movimento de auto-proteção. os olhos felinos  amarelos fitam meu alvo. a língua salta da boca, dá a volta nos lábios, encaixa-se entre minhas pernas. nesse momento a sala se enche de estalos de boca reforçados por barulho de saliva que ia e vinha. olho para o teto, perço pra qualquer deus, de qualquer credo,  que envie um raio de voltagem pesada para que me evapore do planeta sem deixar traços dos meus sucos que escorrem e me fixam no tempo e no tapete. se ao menos pudesse chegar lá agora, no convento, numa escarpa coberta de heras, com celas minúsculas de onde se enxerga as palmeiras envergadas que quase tocam o mar.

01/08/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 11:59

pois veja só o universo que criaram para os homens: empilhados em sofás sujos, gemendo a cada gole de cerveja, tremendo de tenta aflição com o correr do jogo. testosterona, barbas, cabelos sujos. coadjuvante, passa mulher, de vestido ingênuo, serpenteando entre a cozinha e a mesinha de centro com petiscos nas mãos. queria um dia ver uma televisão criativa. tem sempre essa preocupação, sei lá se é preocupação, em esticar os clichês até que eles nao aguentem mais e se rompam sozinhos.

31/07/2007

fantomas

Arquivado em: rien — by ignoremode @ 11:29

D., vestido de qualquer coisa, entra e sai o tempo todo. diz bom-dia, senta, folheia o jornal, traz debaixo do braço umas novidades frias, livros velhos, folhetos de eventos passados – coisas de 2004, mais ou menos – e nunca acrescentou grandes cores ao nosso ofício diário. é um fantasma dos corredores corporativos. sempre está ali ou acolá tentando engendrar algum laço social com os passantes. esses dias d. me perguntou se eu me interessava pelo aquecimento global. falei que sim, meio indiferente, e recebi uma revista grande, feia, de papel muito branco e duro, que versava sobre arquitetura e as novas configurações do planeta. li duas linhas, abandonei a revista e ele se ressentiu, pelo que me dei conta mais tarde. não discuti o tema, e ele parou de me perguntar se eu gostava disso e daquilo. de repente me tornei desinteressante pro d., um quadro barato pendurado na parede cor-de-nada. para o próprio fantasma, eu me tornei um fantasma – e vi de perto como somos incapazes de enxergar além da retina alheia.

30/07/2007

pesticidas

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:38

pôs conhaque no copo e bateu na mesa: agora falemos dos intelectuais, esses bestas que não tocam a mim nem a ti. consegues, por acaso, enxergar o deleuze, barthes ou guattari tendo uma relação sexual? (…) não, primeiro porque jamais imaginaria qualquer ser humano,  catedrático ou estivador, mantendo uma “relação sexual”. as pessoas trepam, S., ou, sei lá, dão umazinha, funfam, dão uma bimbada, não sei. falar “relação sexual” é tão pernicioso quanto “fazer amor”. porque amor não se faz, já nasce pronto, está nas prateleiras do carrefour em promoção – pague 400, leve 500ml – dá até pra recorrer ao procon, caso o sentimento não o satisfaça por completo. mas me ocorreu agora que, talvez, relação sexual combine com a segunda pessoa, esse tempo verbal odioso que você costuma a usar. você concorda? tu concordas? amor é produto. relação sexual é segunda pessoa. relação sexual és tu.

rolda molda

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 12:26

puxava suas barbas, balançava nela, enroscava os dedos e me perdia dentro da mata branca e grisalha que escorria pelos ombros, peito, barriga, coxas, pés e seguia pra muito além do subsolo. descia pelas curvas de gordura, escorregava pelas escamas da pele. H. gostava da denominação “subsolo”, parecia algo além do planeta, ou mais perto da china. e eu continuava achando que china era marte, saturno, vênus, menos terra. água quente caía barulhenta na bacia, hora de enfiar os pés. a pele enrugada, congelada, atravessava a moita de vapor e se acomodava no ventre transparente. ouvia-se um suspiro que inundava a sala inteira. espirro vai, vem e retorce o pescoço, incha as veias, paralisa um lado só. acabou meu frenesi, falei-lhe, só restou uma imagem velha e apagada de você – sonho com sua língua no meu pescoço às vezes. por acaso aconteceu hoje, o único momento aconchegante em meio a tanto frio. queria demais, mas, como eu já disse, apagou. você é nada mais que papel amarelado agora.

27/07/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 18:47

quando está longe, sinto uma culpa fenomenal. nao quero, nao preciso, me faz mal achar que estou empenhando muita energia naquilo, enfim. mas quando o vejo, tão bonitinho e inocente, penso que fiz a escolha certa e que vou ser feliz. afinal, nao sei mais o que importa.

03/07/2007

Arquivado em: amigos — by ignoremode @ 23:51

subiu pelas pernas uma certa sensaçao de leveza depois que se desfez das materializações do passado. quer dizer, nao se desfez no sentido de jogar fora, apenas tirou do domínio público e as enfiou em uma caixa bonita, ornada com um grande laço encarnado. eram só suas agora, e poderia recorrer a elas sempre que achasse necessário. divertia-se, com um pouco de vergonha estampada nas bochechas, com suas imaturidades de quatro, cinco anos atrás. escorria pela pauta uma letra bonita, de caligrafia, que às vezes, repentinamente, tornava-se feia, afetada, ou pretensiosa demais. havia um certo rancor na curva do A, alguns recalques no tracinho do T, saudosimo no M e no N e muita beleza no H. não há quem controle essas coisas. dona alice dizia (é mentira, ela nunca disse) que tudo o que a gente é está estampado, de alguma forma, no nosso corpo. precisamente às 23h40, tampou a caixa, fechou o laço com força, ergueu-se, desequilibrou-se um pouco com o peso das memórias e se esticou para alcançar o alto do guarda-roupa: pronto, bastava isso. agora só deus sabe quando aquilo lá será aberto novamente – talvez nem Ele saiba.

26/06/2007

a castanha.

Arquivado em: carne e osso — by ignoremode @ 15:53

dona risadinha, cheia de marra, chega meio mulata-de-televisão fazendo beicinho e levantando os cabelos cacheados com os braços, exibindo as axilas lisas meio escuras, o bronzeado dos braços-de-dentro, abaixando devagarinho, mostrando a ponta da língua, andando esquisito, enfim, essas coisas que o calor faz com a gente. penélope em fúria, gira, olha meio assim, do jeitinho que viu na novela, e deixa o cabelo cair nos ombros, nas costas, por sobre o rosto.

as mãos vao escorrendo sincronizadas pelo corpo, sobem a ladeira dos seios, desnudam um deles, descem e páram na cintura. espaço aberto para o bico negro e rígido emergir do meio da renda, moleque pretinho atrevido que quer meter o nariz aonde não é chamado. ela olha devagar, faz uma coisa com a boca – como se dissesse “ops.. escapou” – traz o rosto de volta, aperta os olhos e continua a lascívia da vulva quente, invocando a lava que precisa escorrer por entre as pernas, se contorcer com a dor das punhaladas. aproxima-se, mexe na cabeça do corpo macilento e atônito, esfrega o ventre nu nas faces vermelhas do moço, que, de olhos fechados, inala o cheiro de perfume e suor, passeia com a língua pelo umbigo, sente a textura da pele afastar-se e reabre as vistas para observar o cabelo ondulado subir novamente, o rosto se estreitar com as expressões ensaiadas, os dois peitículos balançar solenes ao som de nada.

cai o balaio, a castanha negra e oleosa está ali, a menos de um braço de distância. deseja-a a ponto de sentir uma vertigem nos testículos, algo frio que sobe pela bexiga, ataca o estômago e vem se agrupar na garganta. quer, e está nervoso. precisa daquilo para abandonar sua condição de homem, refazer-se menino minúsculo, entrar por aquele túnel e ficar ali, agachado no silêncio, corroendo a pobre mulher por dentro: parasita, sim um parasita. era aquilo e pronto!

ansiava como nunca pela fruta negra embutida, repleta de espinhos, precisava fartar-se dela, dormir no seu entorno, manter a vigília eterna que protege suas entradas e suas cavernas. os passos estavam quase-lá, notava o perfume abraçá-lo, enfiava os dedos no lençol, apertava-o, punha a língua para fora e esperava, passivo e predador, o ventre roçar ali outra vez- mas agora não o deixaria se distanciar, é pra valer, tremia pelo pedaço daa carne escura-de-bronze, canibalizaria os corpos para que ninguém se perdesse ao voltar para casa. mãos pequenas agarravam-lhe a cabeça, sufocavam-no contra a pele fria e elástica. estava ali a deixa pela qual tanto esperara: tirou da boca o braço áspero, envolveu as ancas, cravou os dedos na polpa mole das nádegas e mergulhou pelas brechas úmidas, cheias de sabor e sedimentos. abriu os olhos e percebeu que metade de si já havia ingressado naquele mundo imaginário, buscou a superfície para respirar por um segundo e percebeu, pela primeira vez na vida, que estava com um pedaço de carne viva e pulsante entre os dentes.

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